O aumento da proporção de etanol anidro na gasolina, que passou de 30% para 32%, demanda atenção especial por parte dos proprietários de veículos mais antigos, importados ou equipados com carburadores. Especialistas destacam que esses modelos podem apresentar problemas como falhas, perda de desempenho e aumento no consumo, dependendo de seu projeto e estado de conservação.
A nova mistura, denominada E32, foi aprovada recentemente pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Em veículos flex, a adaptação ocorrerá automaticamente, sem a necessidade de recalibração.
O etanol possui menor poder energético por litro em comparação à gasolina. Por conter oxigênio em sua composição, demanda um maior volume de combustível para que a mistura mantenha a proporção adequada dentro do motor.
Esse fator pode resultar em um aumento no consumo, mesmo quando o sistema eletrônico é capaz de realizar essa compensação. Se a central ou os componentes de alimentação não fornecerem a quantidade suficiente de combustível, o motor pode operar com uma mistura muito pobre, o que pode provocar falhas, perda de potência e alterações nas emissões.
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Veículos flex devem se adaptar automaticamente
Nos modelos flex, a central eletrônica foi projetada para lidar com variações significativas na quantidade de etanol presente no combustível.
“Não é necessária recalibração. O equipamento já está preparado para funcionar com quantidades elevadas de etanol. Basta abastecer com essa gasolina que o motor se ajusta. A injeção eletrônica consegue reconhecer a quantidade de etanol presente no combustível e se adapta automaticamente”, observa o consultor técnico Fábio Fukuda.
A unidade de controle eletrônico do veículo, conhecida pela sigla ECU, utiliza informações fornecidas pela sonda lambda, que está instalada no sistema de escapamento, e dados como temperatura, rotação e carga do motor, para estimar a composição presente no combustível.
Com base nessas informações, o sistema ajusta a quantidade injetada de combustível e pode até corrigir a ignição, conforme a calibração do veículo e os sinais que recebe do sensor de detonação.
De acordo com o engenheiro mecânico Thiago Teixeira, a mudança da gasolina E30 para a E32 representa uma variação pequena para um sistema flex que se encontra em boas condições.
Projeto e conservação definem risco em motores a gasolina
Para os veículos que utilizam exclusivamente gasolina, a capacidade de adaptação varia conforme o projeto de cada fabricante.
Alguns modelos conseguem fazer a correção da mistura em uma faixa maior, enquanto outros têm margens menores e podem rapidamente atingir o limite de compensação.
O funcionamento do motor não depende apenas da eletrônica. A capacidade da bomba de combustível, bicos injetores e outros componentes desempenham um papel crucial em decidir se o motor é capaz de fornecer o volume adicional necessário de combustível.
A idade do veículo não é o único fator que define o risco. O mercado para o qual o automóvel foi projetado e o estado do sistema de alimentação são considerados mais relevantes.
“Nos motores mais modernos, o risco de desgaste ou corrosão de componentes é bastante reduzido. Como já estamos há um bom tempo utilizando etanol na gasolina, os fabricantes adequaram os componentes para suportar essa maior carga de etanol,” explica Fukuda.
É importante ter atenção especial com modelos importados que foram desenvolvidos para países onde a gasolina apresenta uma proporção menor ou até mesmo ausência de etanol.
Carros anteriores a 2000 exigem inspeção
Veículos com mais de 20 anos, especialmente os fabricados antes de 2000, podem ter bombas, filtros, bicos injetores, mangueiras, sensores, boias e vedações que não foram projetados para um contato prolongado com concentrações mais elevadas de etanol.
“Dependendo da originalidade do veículo, você pode enfrentar problemas. Muitos desses carros foram fabricados somente para funcionar com gasolina. O componente mais crucial é a bomba de combustível; depois, vêm os filtros, bicos injetores e outros elementos que podem sofrer corrosão”, destaca o consultor.
Peças que já apresentem ressecamento ou desgaste são mais propensas a vazamentos e falhas. Por outro lado, um veículo antigo que recebeu peças novas e compatíveis pode estar em uma condição melhor do que um modelo mais recente com um sistema de combustível deteriorado.
Cheiro forte de combustível, vazamentos ou umidade nas conexões exigem uma inspeção imediata.
Carburadores podem precisar de ajustes
Os principais desafios estão nos veículos equipados com carburadores, que não dispõem de uma central eletrônica que ajuste automaticamente a quantidade de combustível que é enviada ao motor.
Nesses casos, a adaptação é dependente da regulagem, calibração e materiais empregados na fabricação do carburador.
“Há uma diferença significativa entre o carburador a álcool e o carburador a gasolina. O primeiro, feito para o álcool, recebe um banho de níquel para suportar o etanol, já os carburadores a gasolina não passam por esse tratamento. Por isso, estes últimos apresentam uma tendência maior à corrosão”, esclarece Fukuda.
No entanto, a adoção da E32 não implica que todos os carburadores a gasolina precisarão ser trocados. A pequena diferença de dois pontos em relação à mistura atual é considerada irrelevante, e a necessidade de intervenção dependerá das condições específicas de cada veículo.
Em algumas situações, pode ser necessário revisar giclês, marcha lenta, bomba de aceleração, ponto de ignição e vedações. De acordo com especialistas, uma regulagem padrão pode não ser suficiente.
“Para veículos anteriores a 2000, é importante verificar, caso o carro tenha um carburador, se ele é voltado para etanol. Se não for, será necessário substituí-lo. Além disso, deve-se considerar a troca da bomba de combustível, da boia e das mangueiras, que precisam suportar o etanol”, conclui Fukuda.
Falhas não comprovam problema com a E32
Dificuldades para dar partida, marcha lenta irregular, hesitações, perda de desempenho e aumento no consumo podem ser indicativos de que a central eletrônica chegou ao limite de compensação ou que algum componente já apresentava degradação.
Contudo, nenhum desses sintomas, isoladamente, comprova que o uso da gasolina E32 seja a causa dos problemas.
A avaliação das falhas deve incluir a leitura dos parâmetros da ECU, análise das correções de combustível e medição da pressão da linha. Bomba, filtros, bicos injetores, mangueiras e vedações também precisam passar por uma inspeção detalhada.
Ainda que a central possa ampliar o tempo de abertura dos bicos injetores para compensar a mistura, ela não pode corrigir desgastes mecânicos, nem tornar viável o uso de uma peça que não foi projetada para suportar concentrações maiores de etanol.
Os especialistas também não sugerem o uso automático de aditivos. Nos veículos flex mais modernos, um combustível de procedência confiável e manutenção regular são geralmente suficientes. Nos modelos que utilizam exclusivamente gasolina, é fundamental que o proprietário siga as orientações contidas no manual do veículo e busque avaliação técnica em caso de falhas.
Anfavea contesta validação técnica da E32
O governo defende o aumento da mistura como uma estratégia para reduzir a dependência da gasolina importada, expandir o uso de biocombustíveis e diminuir as emissões dos gases do efeito estufa.
Entretanto, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) contesta que os testes realizados para validar a gasolina E30 possam ser considerados um respaldo técnico para a adoção obrigatória da E32.
De acordo com a Anfavea, os ensaios avaliaram aspectos relacionados ao desempenho e à dirigibilidade, e combustíveis com até 32% de etanol foram utilizados apenas para atender a margem de tolerância prevista no programa de testes.
Portanto, para a associação, isso não significa que o uso obrigatório de uma mistura com 32% de etanol tenha sido devidamente validado.
A Anfavea ressalta que os ensaios não contemplaram avaliações de durabilidade, autonomia e emissões, nem uma análise abrangente da frota em circulação. Por essa razão, a entidade sustenta que os resultados “não configuram uma base técnica que justifique a elevação do teor de etanol para 32%.”
A entidade ainda alerta que a especificação da E32 pode permitir, dentro da margem regulatória, a adoção de gasolina que contenha até 34% de etanol.
Fonte: timesbrasil.com.br

