“Irreversível” refere-se a algo que não pode ser revertido. Contudo, o Ibovespa demonstrou o oposto ao longo do dia. O índice iniciou com uma queda significativa, ensaiou uma recuperação, virou para alta, renovou máximas no final da sessão e, após todas essas oscilações, voltou a cair. O fechamento da terça-feira (9) registrou uma baixa de 0,13%, com 157.981,13 pontos, o que representa uma perda de 206,30 pontos.
No dia anterior, o Ibovespa teve uma alta de 0,52%, encerrando aos 158.187 pontos, recuperando parte da queda histórica de mais de 7 mil pontos observada na sexta-feira (5), que foi a pior queda em um período de quatro anos.
O movimento volátil do índice reflete uma bolsa que tenta precificar simultaneamente a política eleitoral, os eventos da “Super Quarta” relacionados aos juros e um cenário externo ainda complicado.
O cenário cambial também acompanhou o pessimismo. O dólar comercial subiu 0,26%, alcançando R$ 5,435. Notícia completa.
Na renda fixa, os DIs subiram ao longo de toda a curva, refletindo um prêmio maior de risco e uma expectativa mais cautelosa em relação à Selic. Em um dia marcado por estresse, as negociações de juros chegaram a ser paralisadas novamente, evidenciando um mercado pouco líquido e sensível a qualquer informação.
Flávio Bolsonaro, anistia e o impacto da incerteza
O gatilho para o movimento no mercado veio da política. O senador Flávio Bolsonaro declarou que sua pré-candidatura à Presidência é “irreversível”, enfatizando que “não voltaremos atrás”. No final de semana, ele havia insinuado que uma desistência de sua candidatura teria um “preço”: a anistia do pai, Jair Bolsonaro, que se encontra preso por tentativa de golpe de Estado.
A Câmara dos Deputados até sinalizou nessa direção ao votar o PL da Dosimetria, um projeto que pode permitir a redução do tempo de prisão do ex-presidente. No entanto, até o momento, tratou-se apenas de um gesto parcial, longe de um “perdão completo”. Para os investidores, essa combinação de uma candidatura mantida e uma anistia incerta gera um ruído eleitoral maior, prejudicando a clareza sobre o cenário fiscal e as reformas a serem implementadas a partir de 2026.
O “mercado” parece ter um candidato preferido, que não é nem Flávio nem Lula. A queda do índice, bem como a alta do dólar e dos juros, refletem uma rejeição explícita à candidatura de Flávio Bolsonaro, evidenciada pela queda no dia seguinte à sua declaração.
A expectativa predominante era de que Jair Bolsonaro apoiaria Tarcísio de Freitas, visto como uma alternativa mais competitiva ao atual governo. O suporte da família Bolsonaro a Flávio é interpretado como uma possibilidade de aumento das chances de Lula permanecer no poder. Para a maioria dos gestores, isso sugere a continuidade das mesmas condições macroeconômicas, incluindo uma dívida pública elevada, desafios em resultados primários e um déficit nominal crescente. Com essa perspectiva, o prêmio exigido em ações, câmbio e juros tende a aumentar.
Perspectiva otimista: Ibovespa a 189 mil pontos
Curiosamente, o sentimento de pessimismo momentâneo não ofuscou o otimismo estrutural em relação à bolsa brasileira. Uma pesquisa realizada pelo Itaú BBA com 127 investidores institucionais, entre os dias 28 de novembro e 5 de dezembro, revelou que a expectativa média para o Ibovespa ao fim de 2026 é de aproximadamente 189 mil pontos, o que representa mais de 30 mil pontos a mais que o nível atual.
As respostas obtidas indicam uma melhora de humor em relação à pesquisa realizada em agosto. Para os próximos seis meses, 78,7% dos entrevistados possuem uma visão positiva sobre ações brasileiras, enquanto 16,5% estão neutros e apenas 5% esperam um cenário negativo.
Em uma escala de 0 (pessimista) a 10 (otimista), a nota média subiu para 7,18. Setorialmente, ações de empresas elétricas, de saneamento e grandes bancos continuam como as principais posições “overweight”, enquanto o setor de construção civil ocupa o terceiro lugar, e a área da saúde perdeu espaço.
Essas projeções emergem após um ciclo de erros de avaliação do próprio mercado. No final de 2024, as estimativas indicavam um 2025 bastante desfavorável; na realidade, a economia cresceu de forma mais robusta, a inflação diminuiu e a bolsa teve um desempenho superior ao previsto.
Atualmente, as expectativas se voltam a ser otimistas, embora com um número maior de condicionais: uma política fiscal responsável, inflação controlada e cortes graduais na Selic são vistos como pré-requisitos para que o Ibovespa se aproxime dos 189 mil pontos em 2026.
Copom, Fed e a “Super Quarta” de juros
Economistas da XP analisam que a desinflação ainda é “insuficiente” para justificar cortes imediatos na Selic, apesar de uma melhora no quadro inflacionário. A expectativa para a decisão da quarta-feira (10) é de manutenção da taxa em 15% ao ano, acompanhada de um comunicado cuidadoso e um tom firme sobre o risco fiscal.
O Boletim Focus projeta um crescimento do PIB de 2,25% para 2025, 1,8% para 2026, seguido por 1,84% em 2027 e 2% em 2028. Em relação ao IPCA, as medianas indicam 4,4% para 2025, 4,16% para 2026, 3,8% para 2027 e 3,5% para 2028, já dentro do intervalo de meta, mas ainda acima do centro de 3%.
As projeções para a Selic indicam que a taxa se manterá em 15% até o final de 2025, 12,25% em 2026, 10,5% em 2027 e 9,5% em 2028.
A XP salienta um aspecto político sensível: a política fiscal expansionista em União e estados, que inclui tanto o governo Lula quanto administrações como a de Tarcísio, em um ano eleitoral. Se a aceleração dos gastos eleva o crescimento doméstico sem contrapartidas viáveis, o ciclo de cortes previsto para 2026 poderá ser mais breve e superficial do que os investidores desejam.
Nos Estados Unidos, a discussão sobre juros também prevalece. Um assessor da Casa Branca comentou que existe “bastante espaço” para reduções. O consenso é de que o Federal Reserve deverá reduzir a taxa em 0,25 ponto percentual na próxima quarta; no entanto, a atenção estará voltada para as projeções (“dot plot”) e para as declarações de Jerome Powell, presidente do Fed, em fim de mandato até maio. Uma sinalização de cortes mais agressiva pode aliviar a pressão sobre o dólar global e contribuir para um real menos pressionado.
Wall Street e Europa em compasso de espera
Enquanto o Brasil processa o ruído eleitoral e aguarda as decisões do Copom, o mercado de Nova York apresenta uma postura cautelosa. A cautela predominou, similar ao dia anterior, resultando em índices mistos, refletindo a rotação entre setores e um ajuste fino de posições em antecipação à decisão do Fed.
O Nasdaq, que possui forte presença de empresas de tecnologia, subiu 30,58 pontos, ou 0,13%, para 23.576,49, enquanto o S&P 500 caiu 6,00 pontos, ou 0,09%, para 6.840,51, e o Dow Jones recuou 179,03 pontos, ou 0,37%, para 47.560,29. Fechamento dos EUA.
No âmbito econômico dos EUA, o Departamento do Trabalho divulgou um relatório que mostrou um leve aumento nas vagas de emprego no país em outubro. O número de vagas de emprego subiu para 7,670 milhões em outubro, em comparação a 7,658 milhões em setembro.
As bolsas de valores da região Ásia-Pacífico exibiram predominantemente quedas na terça-feira. O índice Hang Seng de Hong Kong caiu 1,3%, e o índice Shanghai Composite da China recuou 0,4%. Em contrapartida, o índice Nikkei 225 do Japão, contrariando a tendência, subiu 0,1%. Fechamento asiático.
Os principais mercados europeus apresentaram um desempenho misto no dia. O índice alemão DAX subiu 0,5%, enquanto o índice britânico FTSE 100 fechou ligeiramente em queda, e o índice francês CAC 40 registrou uma queda de 0,7%. Fechamento europeu.
Vale e Petrobras em alta, bancos em baixa
Na bolsa brasileira, o pregão foi caracterizado por mudanças de sinal. A Vale (BOV:VALE3), um dos pilares do Ibovespa, passou boa parte do dia em alta, porém encerrou com um leve avanço de 0,19%. A Petrobras PN (BOV:PETR4) fechou em alta de 0,66%, justo no dia em que anunciou sua entrada no mercado de biometano.
As commodities, por sua vez, voltaram a cair. O WTI para janeiro encerrou em baixa de 1,07% (US$ 0,63), a US$ 58,25 o barril, enquanto o Brent para fevereiro recuou 0,88% (US$ 0,55), encerrando a US$ 61,94. Analistas da Ritterbusch consideram que o mercado de energia está excessivamente otimista quanto a um possível acordo entre Rússia e Ucrânia que poderia levar à redução das sanções contra Moscou, justificando assim essa correção.
O setor financeiro foi um fator determinante para o fechamento negativo do dia, com os bancos pressionando o índice. O Banco do Brasil (BOV:BBAS3) chegou a entrar em alta durante a tarde, colaborando para uma tentativa de recuperação do Ibovespa, mas finalizou com uma queda de 0,37%. O Bradesco PN (BOV:BBDC4) caiu 1,21%, o Itaú Unibanco PN (BOV:ITUB4) teve uma queda de 0,31%, e o Santander Unit (BOV:SANB11) perdeu 2,13%.
Dividendos, bonificações e o “carro voador” da Embraer
Entre os destaques positivos do pregão, a PRIO (BOV:PRIO3) subiu 1,22%, impulsionada pela proximidade do pagamento de dividendos que mantém suas ações entre as preferidas da renda variável. A Axia Energia (BOV:AXIA3) valorizou-se em 1,88% após informar uma bonificação de ações.
A Embraer (BOV:EMBJ3) encerrou com alta de 3,52% após anunciar que sua subsidiária Eve Air Mobility, focada em eVTOLs, obteve um novo financiamento de R$ 200 milhões do BNDES. Esse pacote utiliza R$ 160 milhões do Fundo Clima e R$ 40 milhões da linha Finem e destina-se à integração dos motores elétricos e aos testes de certificação do protótipo.
Desde 2022, o BNDES já aprovou R$ 1,2 bilhão em crédito para a Eve, que inclui a construção da fábrica em Taubaté (SP). Em agosto, foi anunciado um investimento direto de R$ 405,3 milhões na empresa. O “carro voador” será capaz de acomodar cinco pessoas, com autonomia de 100 quilômetros, e sua previsão de início de operação é para 2027. Existem atualmente 2,8 mil pedidos de encomenda em nove países.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, definiu o projeto como uma inovação disruptiva em mobilidade urbana, com emissões inferiores às de helicópteros e automóveis convencionais. Para a Eve, o financiamento acelera “uma etapa crítica” do programa: a integração do sistema de propulsão elétrica, essencial para o desempenho, segurança e confiabilidade da primeira aeronave a obter certificação.
Paralelamente, a Embraer aprovou o pagamento de R$ 79,7 milhões em juros sobre capital próprio (R$ 0,11023887825 por ação) e R$ 80 milhões em dividendos (R$ 0,11068605544 por ação).
A Klabin (BOV:KLBN11) também se destacou ao anunciar dividendos de R$ 0,18 por ação ordinária ou preferencial, além de R$ 0,91 por unit, pagos em quatro parcelas de R$ 278 milhões cada. A ação da empresa fechou com um avanço de 1,12% no dia.
Outras altas e baixas do dia
A Cia Ferro Ligas Bahia Ferbasa (BOV:FESA3) teve uma alta de 8,43%, alcançando R$ 12,47. A Cia Participações Aliança Bahia (BOV:PEAB3) cresceu 6,75%, atingindo R$ 37,49.
A Ambev (BOV:ABEV) teve uma leve alta de 0,15%, fechando a R$ 13,64, enquanto a Ser (BOV:SEER3) aumentou 4,25% e chegou a R$ 9,07. Com isso, o Pão de Açúcar (BOV:PCAR3) subiu 3,91%, atingindo R$ 3,99, a Usiminas (BOV:USIM3) avançou 3,90%, fechando a R$ 5,86, e a Méliuz (BOV:CASH3) cresceu 3,86%, alcançando R$ 4,04. A Helbor (BOV:HBOR3) encerrou o dia com uma alta de 3,46%, atingindo R$ 2,69.
No entanto, entre os papéis em queda, a Arandu Investimentos (BOV:ARND3) despencou 34,78%, passando a ser negociada a R$ 0,75. Enquanto isso, a Recrusul (BOV:RCSL3) teve uma queda de 9,23%, e a Paranapanema (BOV:PMAM3) recuou 3,13%.
O desempenho negativo continuou com a Bioma Educação (BOV:BIED3), que caiu 8,97%, alcançando R$ 3,55, e a locadora Movida (BOV:MOVI3), que recuou 5,98%, sendo negociada a R$ 11,33. A Americanas (BOV:AMER3) ainda se mantinha sob pressão, registrando uma perda de 4,89%, fechando a R$ 6,42, e a Nordon (BOV:NORD3) caiu 6,12%, terminando a R$ 4,60.
Entre os papéis mais líquidos, a Qualicorp (BOV:QUAL3) retraiu 5,96%, negociando a R$ 2,21. O JSL (BOV:JSLG3) cedeu 3,88%, a R$ 7,43, e a Multilaser (BOV:MLAS3) recuou 6,41%, fechando a R$ 1,46. A Magazine Luiza (BOV:MGLU3), uma das mais negociadas do pregão, caiu 4,55%, terminando o dia a R$ 10,06.
Minha Casa Minha Vida impulsiona construção e PIB
O ministro das Cidades, Jader Filho, anunciou que o governo está determinado a financiar 3 milhões de unidades habitacionais até o fim de 2026, assegurando que não faltarão recursos para isso. A previsão é que 2025 finalize com cerca de 2 milhões de moradias contratadas desde o início da gestão de Lula.
Para possibilitar essa expansão, são previstos R$ 144,5 bilhões do FGTS até 2026, dos quais R$ 125 bilhões se destinam à habitação popular. Além disso, R$ 5,5 bilhões do Orçamento visam subsídios para a Faixa 1 urbana, atualmente em análise no Congresso, e R$ 17 bilhões do fundo da Caixa Econômica Federal com o mesmo objetivo. Em novembro, foram firmados 80 mil novos financiamentos, superando a média mensal de 60 mil registrada até outubro, sendo que uma em cada três contratações é para a Faixa 1.
Em São Paulo, 67% dos lançamentos já pertencem ao programa Minha Casa, Minha Vida. As faixas de renda passarão por atualizações no início de 2026; a Faixa 1, que atualmente atende famílias com renda de até R$ 2.850, deverá contemplar aqueles que ganham aproximadamente dois salários mínimos. O objetivo do governo é estabilizar uma média de 80 mil contratações mensais até 2026 e expandir a oferta para a classe média, visando alcançar 10 mil contratações nesse segmento, ante as atuais 6 mil.
Indústria desacelera, mas regiões mostram desempenho desigual
No que diz respeito à indústria, os dados continuam evidenciando uma desaceleração. A CNI informou que o faturamento industrial baixou 2,7% em outubro em comparação a setembro, sendo essa a terceira queda mensal consecutiva. No acumulado do ano até outubro, o crescimento é de apenas 1,2%, bem abaixo dos 4,6% observados até julho na comparação com o mesmo período de 2024.
O emprego na indústria caiu 0,3% em outubro, enquanto a massa salarial e o rendimento médio diminuíram 0,5% e 0,3%, respectivamente, no mesmo mês. No acumulado de 2025, a massa salarial recuou 2,4% e o rendimento médio caiu 4,2%, refletindo perda de poder aquisitivo. Por outro lado, o número de horas trabalhadas cresceu 0,4%, marcando a segunda alta seguida, e a utilização da capacidade instalada subiu de 78,3% para 78,4%.
A Pesquisa Industrial Mensal Regional, realizada pelo IBGE, confirma a heterogeneidade do quadro. Em outubro de 2025, frente ao mesmo mês de 2024, a produção caiu em seis dos dezoito locais pesquisados, enquanto ficou estável no Maranhão. Entre os locais que apresentaram alta, destacam-se o Espírito Santo (18,3%), Amazonas (12,5%), Goiás (11,7%), Rio de Janeiro (9,5%) e Pernambuco (4,8%). Também houve crescimento em Minas Gerais (2,9%), Região Nordeste (2,1%), Rio Grande do Sul (1,8%), Bahia (1,2%), Santa Catarina (0,6%) e Ceará (0,4%). Na média nacional, a indústria encolheu 0,5%.
Agro, inflação e previsão para o preço da carne em 2026
A Anec projeta embarques de milho de 4,99 milhões de toneladas em dezembro, o que representa um aumento de 37,9% em relação ao ano anterior. Nos embarques de soja, a expectativa é de alcançar 2,81 milhões de toneladas, uma alta de 91,2%. No entanto, as exportações de farelo de soja devem recuar 26,1%, totalizando 1,33 milhão de toneladas.
No que diz respeito à tecnologia agrícola, a empresa alemã Bayer anunciou o lançamento da semente de soja Intacta 5+ no Brasil, prevista para a safra 2027/28, sujeita à aprovação regulatória. Essa será a primeira tecnologia no país a apresentar tolerância a cinco herbicidas (mesotriona, dicamba, glifosato, glufosinato e 2,4-D) e proteção contra determinados tipos de lagartas.
O Brasil já é o segundo maior produtor de culturas transgênicas do mundo; um relatório do USDA indica que, em 2024/25, o país deve semear 68,5 milhões de hectares com características geneticamente modificadas, com taxas de adoção de 99% para soja e algodão e 95% para milho.
A CNA, por sua vez, alerta para uma possível alta nos preços da carne bovina em 2026. Em 2025, a participação de fêmeas no abate atingiu 49,9%, um estágio final do ciclo pecuário que tende a reduzir a futura oferta. Os abates de bovinos cresceram 5,6% até o terceiro trimestre, com a produção de carne aumentando 3,8%. Para 2026, a CNA projeta uma queda de 4,5% na produção, o que deve resultar em elevação no preço da arroba e da carne ao consumidor, além de promover uma valorização de carnes alternativas como frango e suíno.
Adicionalmente, há um risco externo significativo, dado que a China, que representa cerca de metade das exportações brasileiras de carne bovina, está conduzindo uma investigação que pode resultar na implementação de salvaguardas. Se forem impostas restrições, o setor enfrentará incertezas adicionais em um momento de oferta doméstica já mais restrita, pressionando as margens e exigindo diversificação de mercados.
Apesar disso, a CNA informa que, em 2025, o agro contribuiu para uma queda da inflação doméstica de alimentos em 6,18 pontos percentuais, colaborando para um IPCA em torno de 4,4%.
Inflação, Focus e IPC-Fipe: alívio, mas com cautela
No mês de outubro, o IPCA subiu 0,09%, a menor variação para esse mês desde 1998. Em 12 meses, a inflação acumulada é de 4,68%, abaixo de 5% pela primeira vez em oito meses, embora ainda ligeiramente acima do teto da meta de 4,5%. A meta estabelecida pelo CMN é de 3%, com uma banda de 1,5 pontos para mais ou para menos.
A pesquisa Focus desta semana reduziu pela quarta vez consecutiva a projeção do IPCA para 2025, passando de 4,43% para 4,4%, e para 2026, de 4,17% para 4,16%. As estimativas para 2027 e 2028 são de 3,8% e 3,5%, respectivamente. A CNA, no entanto, vê um risco de inflação mais alta para 2026 se o governo aumentar os gastos em um ano eleitoral sem contrapartidas, especialmente em um contexto de Selic que só começará a cair de fato no próximo ano.
Em São Paulo, o IPC-Fipe subiu 0,21% na primeira quadrissemana de dezembro, uma leve aceleração em relação à alta de 0,20% em novembro. O grupo alimentação continua em terreno negativo (-0,20%), impulsionado por alimentos in natura, enquanto itens relacionados a serviços, como viagens e excursões, tiveram alta superior a 18%, sinalizando uma demanda ainda aquecida em alguns segmentos.
Energia, biometano e integração de Roraima
A Petrobras está se preparando para sua entrada no mercado de biometano, adotando um modelo semelhante ao do etanol, com uma participação minoritária em parceria com um grande player do setor. A companhia realizou uma chamada pública para suprir a demanda do biometano e recebeu 19 propostas. Em outubro, o Ministério de Minas e Energia reduziu a meta obrigatória desse combustível de 1% para 0,25% em 2026, no âmbito do programa Combustível do Futuro.
Na área de geração nuclear, a Eletronuclear anunciou uma parada programada de 50 dias na usina Angra 2, localizada no Rio de Janeiro, prevista para iniciar em 16 de janeiro de 2026 e retomar no início de março. Essa será a 21ª parada da unidade e envolverá cerca de 5 mil atividades de manutenção, inspeção, testes e troca de 30% do núcleo de combustível. Angra 2 tem uma capacidade de 1.366 MW e é considerada estratégica para a segurança do sistema elétrico.
A Aneel também definiu o dia 1º de janeiro de 2026 como a data efetiva para a interligação do sistema isolado de Boa Vista (RR) ao Sistema Interligado Nacional. A linha de transmissão Manaus–Boa Vista, com aproximadamente 725 km, exigiu um investimento de R$ 3,3 bilhões e completará o mapa energético brasileiro ao conectar o último estado que ainda estava isolado. Com essa interligação, várias térmicas serão desligadas, o que deve alcançar uma redução nos custos e nas emissões. A distribuidora local é a Roraima Energia, sendo a Eletronorte a responsável pelas instalações de transmissão na subestação Boa Vista.
No campo das concessões, a Aneel recomendou a prorrogação por 30 anos da concessão da Neoenergia Coelba, distribuidora da Bahia. Essa decisão foi tomada por maioria, com base em critérios de continuidade do serviço, gestão econômico-financeira, além de regularidade fiscal e setorial. O diretor Fernando Mosna votou contra, defendendo a inclusão de indicadores adicionais, como satisfação do consumidor e tempo de atendimento a emergências, mas não obteve êxito.
Saúde pública: vacina do Butantan contra a dengue
A Anvisa publicou a autorização para o registro da vacina contra dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante é do tipo tetravalente, eficaz contra os quatro sorotipos do vírus, e será administrado em dose única, com disponibilidade exclusivamente pela rede pública. O Ministério da Saúde planeja iniciar a vacinação em 2026 por meio do SUS, priorizando estados que foram mais afetados pela doença. Essa é a primeira vacina contra a dengue fabricada por um laboratório nacional.
Estatais, Correios e o leilão do Porto de Santos
No que diz respeito à discussão fiscal dos Correios, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informou que o aporte do Tesouro será inferior a R$ 6 bilhões, que era o valor anteriormente considerado para cobrir prejuízo acumulado entre janeiro e setembro. O governo avalia a possibilidade de combinar um aporte menor com um empréstimo que varie entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões, com a garantia da União para reduzir o custo dos juros.
Haddad reforçou que qualquer ajuda financeira estará condicionada a um robusto plano de reestruturação para a estatal. Há espaço fiscal em 2025 para um aporte, mas a decisão a respeito ainda não está definida. A operação pode ser financiada através de crédito extraordinário ou de Projeto de Lei do Congresso Nacional (PLN). Simultaneamente, o pedido original de empréstimo de R$ 20 bilhões foi rejeitado pelo Tesouro em razão do custo elevado; as negociações com instituições bancárias ainda não avançaram para um desfecho rápido.
Sobre o leilão do novo superterminal de contêineres no Porto de Santos, o Tecon Santos 10, o TCU determina que não há margem para o governo desconsiderar sua decisão e realizar um certame aberto sem restrições. O modelo aprovado pelo tribunal prevê duas etapas, nesta primeira etapa, o ingresso dos atuais operadores de terminais em Santos está vetado, assim como barreiras específicas para as companhias de navegação.
A Casa Civil, no entanto, acredita que há espaço para um leilão mais inclusivo, defendendo maior competição e participação de grandes operadores como MSC e Maersk. O Ministério de Portos e Aeroportos tende a seguir a orientação do TCU, receando desgaste caso o Planalto insista em ignorar as orientações do órgão de controle. O projeto prevê mais de R$ 6 bilhões em investimentos, além de uma ampliação de cerca de 50% na capacidade de movimentação de contêineres do porto, o que representa um acréscimo de 3,5 milhões de TEUs. Se o governo decidir insistir em um modelo sem as restrições, a expectativa é que o TCU adote medidas cautelares para barrar o processo.
Dinheiro esquecido, CNH mais barata e agenda na B3
O Banco Central informou que ainda existem R$ 9,92 bilhões em “recursos esquecidos” em instituições financeiras, referente a valores até outubro. Desse total, R$ 7,73 bilhões pertencem a 48,7 milhões de pessoas físicas e R$ 2,19 bilhões a 4,9 milhões de empresas. Até o momento, já foram devolvidos R$ 12,6 bilhões. O site para consulta é o valoresareceber.bcb.gov.br.
Em relação às mudanças na Carteira Nacional de Habilitação (CNH), o governo federal lançou o projeto “CNH do Brasil”, que promete reduzir em até 80% o custo para os motoristas. O mínimo obrigatório de aulas práticas cairá de 20 para apenas duas horas, cabendo ao candidato decidir se precisa de mais treinamento antes de realizar o exame. O curso teórico será totalmente online e gratuito, mas ainda haverá disponibilidade de aulas presenciais em autoescolas e instituições credenciadas.
Na B3, o calendário de fim de ano não apresenta surpresas: não haverá pregão nos dias 24 e 25 de dezembro; as negociações retornarão normalmente na sexta-feira, 26. Outra pausa ocorrerá em 31 de dezembro e 1º de janeiro, com o retorno das operações agendado para o dia 2 de janeiro. Essa regra se aplica a todos os mercados, incluindo: renda variável, renda fixa privada, ETFs, derivativos, empréstimo de ativos, compensação, liquidação, Câmara de Câmbio, Central Depositária, balcão e Tesouro Direto.
Política, Congresso e tensão institucional
Na Câmara dos Deputados, Glauber Braga ocupou a cadeira da Presidência na terça-feira em protesto contra a decisão de Hugo Motta de pautar a votação de sua cassação ainda no mesmo dia. A transmissão oficial da sessão foi interrompida, e jornalistas foram retirados do plenário.
Esse acontecimento ocorre em uma semana em que o Congresso também discute pedidos de cassação de outros deputados condenados pelo STF, como Alexandre Ramagem e Carla Zambelli, além de debater o PL da Dosimetria, considerado por apoiadores de Jair Bolsonaro como uma possibilidade para reduzir o tempo de prisão do ex-presidente. A Mesa Diretora ainda não anunciou se haverá algum tipo de punição a Glauber pelo ato realizado.
Enquanto isso, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a libertação da presidência da Alerj, Rodrigo Bacellar, que se encontrava preso sob suspeita de vazar informações sigilosas relativas a operações da Polícia Federal para um dos alvos investigados. Bacellar deixará a prisão usando uma tornozeleira eletrônica, afastado da presidência da Alerj, e precisará permanecer em casa das 19h às 6h (e integralmente nos fins de semana), além de estar proibido de contatar outros investigados, com o passaporte retido.
Na prática, o STF validou a resolução da Alerj que revogou a prisão, mas reiterou que as condições para medidas cautelares permanecem vigentes. Moraes destacou que o tribunal pode impor diversas restrições que não envolvem a prisão, sem que haja a necessidade de nova deliberação da Casa Legislativa, contanto que não inviabilize o exercício do mandato parlamentar.
Volatilidade: um cenário ainda incerto
Ao final do dia, a única certeza compartilhada é a da volatilidade. O Ibovespa apresentou flutuações intensas, o dólar subiu, os juros futuros mostraram aumento, e o noticiário dividiu-se entre temas como a Super Quarta, as eleições de 2026, o programa Minha Casa Minha Vida, questões do agronegócio, a transição energética, o Porto de Santos, os Correios, a CNH mais barata e até o “carro voador” da Embraer.
Os investidores se deparam com um presente incômodo, que inclui uma Selic de 15%, um ambiente político tumultuado e pressão dos bancos no índice, mas continuam a projetar um futuro em que o índice possa atingir 189 mil pontos em 2026, com juros mais baixos, inflação sob controle e reformas mínimas sendo implementadas.
O mercado enfrentará dois testes imediatos: a divulgação do IPCA de novembro, agendada para amanhã, e as decisões do Copom e do Fed durante a Super Quarta. Esses eventos definirão se a correção do dia de sexta-feira foi apenas um evento temporário ou se a deterioração do clima econômico está se tornando algo mais duradouro.
Fonte: br.-.com