A produtora e exportadora de carne bovina Minerva Foods inicia o segundo trimestre de 2026 como uma empresa mais robusta, mas enfrenta um conjunto de riscos externos que torna sua tese de investimento mais complexa. Este é o diagnóstico apresentado pelo Citi, que ajustou o preço-alvo das ações de R$ 7,70 para R$ 5,30 e acrescentou a classificação de alto risco à recomendação neutra que já existia para o papel.
Revisão do Valuation
O banco revisou o valuation da empresa por meio de um modelo de fluxo de caixa descontado atualizado. Para o Citi, a narrativa que anteriormente era clara, ancorada no ciclo pecuário global, tornou-se mais difícil de interpretar devido a uma combinação de três vetores simultâneos: as restrições de cota impostas pela China, a incerteza relacionada aos custos de frete em razão das tensões no Oriente Médio, e um balanço financeiro ainda pressionado.
Resultados Recordes em Ano de Transição
A Minerva encerrou 2025 com uma receita líquida de R$ 55 bilhões e um EBITDA de R$ 4,8 bilhões, ambos em níveis históricos para a companhia. O desempenho positivo deve-se à integração das unidades adquiridas nos anos anteriores, à diversificação geográfica e aos primeiros avanços na desalavancagem.
Apesar disso, o Citi alerta que esses números positivos não protegem o papel dos riscos que se acumulam à frente. Existe um progresso operacional, mas o contexto para 2026 é mais desafiador.
Impacto da China e das Cotas de Importação
A China responde por 23% dos destinos de exportação da Minerva, e, conforme o banco, é o principal fator que atualmente movimenta o risco associado ao papel. A utilização da cota brasileira tem avançado rapidamente, levando o mercado a prever um esgotamento ainda no meio do ano, o que removeria efetivamente a China como um destino marginal no segundo semestre.
O efeito imediato dessa situação é uma antecipação dos embarques no primeiro semestre, com uma recomposição mais desafiadora na segunda metade do ano. O risco, conforme o Citi, não está relacionado ao volume, mas sim ao preço: o excesso de oferta deslocada para mercados alternativos tende a ser absorvido com deságio, o que comprime os spreads realizados pela empresa.
A cota anual do Brasil para exportações sem tarifas adicionais é de 1,1 milhão de toneladas. Os volumes que ultrapassarem esse limite pagarão uma sobretaxa de 55%, além dos 12% já vigentes. Em 2025, as exportações brasileiras para a China chegaram perto de 1,7 milhão de toneladas, o que representa um volume muito acima do teto agora imposto por Pequim.
Pressão nas Margens
O Citi projeta uma margem EBITDA de 8,3% para a Minerva em 2026, em comparação aos 8,8% registrados em 2025. Essa compressão reflete a mudança no ciclo pecuário no Brasil, onde os custos de aquisição de gado estão em ascensão. Argentina e Uruguai podem oferecer alguma alívio, mas o Brasil permanece como o principal núcleo da exposição da empresa.
A reversão do ciclo ocorre em um momento em que as operações sul-americanas da Minerva terão um papel importante para compensar a diminuição das exportações brasileiras para a China. A companhia opera unidades na Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia, o que possibilita a realocação mais ágil dos fluxos de exportação diante das novas regras estabelecidas por Pequim.
Vulnerabilidade na Geração de Caixa
Apesar dos resultados positivos, a conversão de caixa da Minerva continua a ser o ponto mais frágil da estratégia, conforme indicado pelo banco. As despesas financeiras, o capex e o capital de giro continuam a consumir a geração operacional. O capital de giro, em particular, serve como uma alavancagem implícita: diminui a visibilidade e aumenta a volatilidade dos resultados.
A desalavancagem do balanço financeiro continua sendo o principal fator que poderá desbloquear valor para o papel, mas o banco observa que essa trajetória se tornará mais lenta no curto prazo, especialmente considerando a reversão do ciclo e o acúmulo dos riscos.
O primeiro trimestre de 2026 apresenta dificuldades, com a volatilidade nos mercados devido a tensões geopolíticas e aumento nos custos, incluindo o encarecimento do frete marítimo.
Frete e Geopolítica: Camadas de Incerteza
O conflito no Oriente Médio trouxe um risco adicional para uma exportadora global como a Minerva. O aumento nos custos das rotas marítimas pode afetar estruturalmente os custos operacionais e, por consequência, a rentabilidade dos embarques para mercados distantes.
O Citi avalia que a combinação desses fatores justifica a adição da classificação de alto risco à recomendação neutra. A tese de investimento na Minerva ainda depende de variáveis externas que estão além do controle da empresa, tornando o papel mais volátil e a relação risco-retorno menos favorável no curto prazo.
Fonte: timesbrasil.com.br

