O paradoxo do financiamento do agronegócio no Brasil
O Brasil apresenta um paradoxo no que diz respeito ao financiamento de seu agronegócio. Embora esse setor seja crucial para a economia nacional, ele ainda atrai menos investidores comparado a ativos alternativos, como as criptomoedas. Essa é a opinião de Octaciano Neto, fundador da Zera.ag e ex-diretor de agronegócio do Grupo Suno.
Comparação de investimentos
Neto observa que a realidade atual é surpreendente: "Vivemos a aberração de ter mais investidores de Bitcoin do que no agronegócio do Brasil. Temos 5 milhões de brasileiros que investem em apostas e acreditam que isso é investimento. Além disso, contamos com 15 milhões de brasileiros investindo em bitcoin, enquanto menos de 3 milhões destinam seus recursos ao setor que é, indiscutivelmente, o mais importante da economia", declara.
Comunicação do setor
De acordo com o executivo, o descompasso no financiamento do agronegócio pode ser atribuído à maneira como o setor se comunica com o mercado. Historicamente, o financiamento da agricultura foi amplamente dominado pelo Plano Safra, que condicionou produtores e agentes do setor a adotarem um discurso centrado na busca por recursos públicos.
"Aprendemos a falar mal do nosso próprio negócio, pois precisávamos convencer Brasília a liberar mais crédito, renegociar dívidas e ampliar o Plano Safra. O Plano Safra tornou-se cada vez mais coadjuvante", explica.
Mudança estrutural no financiamento
Atualmente, essa realidade já não condiz com o panorama atual. Conforme Neto, cerca de 97% do financiamento do agronegócio brasileiro, totalizando R$ 1,1 trilhão, provém de origens privadas, enquanto apenas 3% é de recursos públicos, considerando tanto orçamentos diretos quanto incentivos fiscais.
O importante a se destacar, segundo Neto, é que o discurso do setor não acompanhou essa mudança essencial na estrutura de financiamento. "Quando o produtor critica o agronegócio, pensando que se dirige apenas ao governo, ele acaba, na verdade, falando com o investidor que aplica em fundos e títulos do setor. Os investidores têm percebido as vantagens de investir no agronegócio", afirma.
Desalinhamento e seus efeitos
Na visão do especialista, esse desalinhamento é um dos fatores que podem explicar a razão pela qual instrumentos financeiros como LCA, CRA e Fiagros ainda têm uma base de investidores relativamente limitada no Brasil, mesmo com o crescimento verificado nos últimos tempos.
Da “bala de prata” à “colcha de retalhos”: a evolução do crédito rural no Brasil
O modelo de financiamento do agronegócio brasileiro passou por uma significativa transformação nos últimos anos. No passado, o produtor tinha a necessidade de crédito atendida, em grande parte, por um único banco, geralmente o Banco do Brasil. Hoje, essa realidade se tornou muito mais complexa.
"Costumo dizer que saímos da música de Fernando & Sorocaba para o estilo de Chitãozinho e Xororó. Antigamente, o crédito no agronegócio era uma ‘bala de prata’: você ia a um banco e resolvia tudo. Hoje, isso se transformou em uma ‘colcha de retalhos’, onde é necessário resolver seu problema de várias maneiras", resume Octaciano Neto.
Na prática, essa mudança implica que o produtor agora tem acesso a diversas fontes de financiamento. Parte do crédito é proveniente de bancos, outra parte é fornecida por tradings e revendas de insumos, e um número crescente de financiamentos é obtido diretamente do mercado de capitais, através de instrumentos como LCA, CRA e Fiagros.
Segundo Neto, o crédito no agronegócio tornou-se cada vez mais complexo, fazendo com que os produtores precisem estar atentos a critérios como gestão, governança e as diferentes formas de acesso a recursos financeiros.
Fonte: www.moneytimes.com.br


