Liberação de reservas de petróleo pela AIE
Os países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) concordaram, unanimemente, nesta quarta-feira (11), em liberar um total de 400 milhões de barris de petróleo no mercado global. Esta medida representa a maior liberação de reservas emergenciais de petróleo já realizada na história. O objetivo é fortalecer o fornecimento de petróleo bruto e controlar o aumento dos preços causado pela guerra no Oriente Médio.
Declarações de autoridades da AIE
“Os países da AIE disponibilizarão 400 milhões de barris de petróleo ao mercado para compensar a perda de oferta devido ao fechamento do Estreito de Ormuz”, afirmou Fatih Birol, diretor-executivo da AIE, durante uma transmissão ao vivo pelo site da instituição.
Birol enfatizou que, apesar de esta ser uma ação significativa para mitigar os efeitos imediatos da interrupção nos mercados, a recuperação dos fluxos estáveis de petróleo e gás natural depende essencialmente da reabertura do trânsito pelo Estreito de Ormuz.
Participação de países membros
A ministra da Economia da Alemanha, Katherina Reiche, confirmou que o país fará parte da liberação, embora os detalhes ainda estejam sendo definidos. Ela também mencionou que os Estados Unidos e o Japão devem ser os maiores contribuintes nesse esforço. Reiche adiantou planos do governo alemão para restringir o aumento diário nos preços da gasolina nos postos, sem especificar um cronograma para a implementação dessas medidas.
Antes do anúncio oficial da AIE, o Japão havia declarado sua intenção de liberar aproximadamente 80 milhões de barris de suas reservas de petróleo, tanto privadas quanto nacionais. Este país, que é mais afetado pelo fechamento do Estreito de Ormuz — uma via que representa cerca de 70% das suas importações de petróleo — anunciou que começará a liberação a partir de 16 de março, segundo informações do Ministério da Economia, Comércio e Indústria japonês.
O ministro da Economia da Áustria, Wolfgang Hattmannsdorfer, também confirmou em coletiva que o país participará dessa liberação. “Estamos em contato próximo com todos os Estados-membros da AIE desde ontem e apoiaremos, em princípio, uma decisão para liberar essas reservas de petróleo bruto”, afirmou.
Comparação com liberações anteriores
O volume recorde de 400 milhões de barris de petróleo acordado pela AIE supera os 182 milhões de barris que os países liberaram em 2022, quando ocorreu a invasão da Rússia à Ucrânia. Somente os Estados Unidos venderam outros 180 milhões de barris de sua própria Reserva Estratégica de Petróleo no mesmo ano.
No entanto, essa nova liberação pode não ser suficiente, especialmente considerando a duração da guerra e os impactos diretos na navegação pelo Estreito de Ormuz, que é responsável por aproximadamente 20% da produção diária global de petróleo, mas que está atualmente fora de uso devido a questões de segurança.
A liberação atual das reservas emergenciais pode ser considerada “insignificante” quando comparada aos cerca de 15 milhões de barris por dia que estão “presas no Estreito de Ormuz”, de acordo com Amrita Sen, fundadora da empresa de inteligência de mercado Energy Aspects, que comentou sobre a situação em uma nota anterior ao anúncio da AIE. Outras estimativas indicam que o volume bloqueado pode chegar a 20 milhões de barris diários.
Sen também mencionou que 400 milhões de barris “seriam absorvidos em 26 dias”, o que não resolveria a falta de oferta e “deixa poucas opções para conter os preços” no contexto atual.
O anúncio da AIE, até o momento, não teve efeitos diretos sobre os preços do petróleo.
Movimentos no mercado de petróleo
Por volta das 12h50, no horário de Brasília, o petróleo Brent, futuro para maio de 2026, referência global, subiu mais de 4%, alcançando cerca de US$ 91,90 o barril. O WTI, futuro de abril de 2026, referência nos Estados Unidos, também registrou uma alta superior a 4%, sendo negociado próximo a US$ 87,40 o barril.
Não está claro o quanto a liberação das reservas de petróleo ajudará na redução significativa dos preços dos combustíveis no varejo. Em 2022, a liberação combinada das reservas americanas e internacionais conseguiu diminuir o preço do galão de gasolina nos Estados Unidos entre 17 a 42 cents, conforme estimativas do Departamento do Tesouro americano.
Para contextualizar, o preço médio do galão de gasolina nos EUA aumentou 60 cents, atingindo US$ 3,58, desde o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã em 28 de fevereiro, conforme dados da Associação Americana de Automóveis (AAA).
Perspectivas sobre a liberação das reservas
A liberação de reservas de petróleo é considerada por especialistas como “uma medida temporária”, e somente uma desescalada militar poderá levar a uma redução sustentável do preço do petróleo bruto. Francesco Pesole, estrategista do banco holandês ING, fez essa análise em um relatório.
As expectativas de reabertura do Estreito de Ormuz parecem ser ainda mais distantes, principalmente após informes de que o Irã está instalando minas na região, segundo relatos de fontes ligadas à inteligência americana. Embora não haja uma grande extensão de minagem até o momento, acredita-se que o Irã possui cerca de 6.000 minas navais, conforme informações de um relatório do Congresso americano publicado no ano anterior.
“O sucesso do Irã em instalar minas no Estreito levou a crise a uma nova dimensão”, declarou Ben Emons, diretor de investimentos da FedWatch Advisors, em nota. Ele acrescentou que, com uma mudança significativa na campanha militar, o controle do Irã sobre o Estreito poderá se intensificar, o que indica que mais minas poderão ser instaladas, dadas as suas capacidades. Isso leva o mercado de petróleo a ver a liberação de 400 milhões de barris pela AIE como uma solução paliativa.
Flutuações nos preços do petróleo
Os preços do petróleo apresentaram oscilações consideráveis nas últimas 48 horas. Na segunda-feira (9), tanto o Brent quanto o WTI ultrapassaram a marca de US$ 100 por barril pela primeira vez em quase quatro anos, mas sofreram uma queda no dia seguinte. O petróleo Brent encerrou o dia com uma queda superior a 11% na terça-feira (10), comparado ao fechamento do dia anterior, cotado a US$ 87,80 por barril – a maior desvalorização em um único dia desde março de 2022.
Essa redução foi impulsionada, em grande parte, por declarações anteriores do presidente dos EUA, Donald Trump, que mencionou que a guerra poderia acabar “muito em breve”, somado ao anúncio da Saudi Aramco, a maior produtora de petróleo do mundo, que indicou um aumento na oferta de petróleo bruto através de um oleoduto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, restabelecendo 70% de seus embarques habituais.
Na manhã da quarta-feira (11), o Irã anunciou que havia iniciado a “operação mais intensa e pesada” desde o início do conflito, conforme reportagens da mídia estatal, enquanto Israel informou sobre uma nova série de ataques direcionados a Teerã.
Além disso, três embarcações teriam sido atingidas por projéteis não identificados nas proximidades do Estreito de Ormuz, segundo a agência marítima do Reino Unido.
O bloqueio da via marítima resultou em um aumento acentuado nos preços do petróleo bruto, com o Brent permanecendo cerca de 23% acima do nível de US$ 73 em que estava cotado antes dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, em 28 de fevereiro. O WTI também está sendo comercializado cerca de 28% acima desse patamar.
*Natasha Bertrand, Sophie Tanno e Maisie Linford, da CNN, contribuíram com esta matéria
**Com informações da Reuters
Fonte: www.cnnbrasil.com.br


