A Polícia Federal realiza nesta quinta-feira (18) a execução de mandados de busca e apreensão direcionados ao senador Jaques Wagner (PT-BA), que ocupa a função de líder do governo Lula no Senado, na nona fase da Operação Compliance Zero. A investigação se concentra especificamente em um apartamento avaliado em aproximadamente R$ 2,5 milhões localizado em Salvador, que foi transferido por Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master.
A autorização para as ações foi concedida pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Entre as evidências que sustentam a suspeita estão mensagens trocadas entre Wagner e Lima, que indicam que o imóvel pode ter sido utilizado como uma forma de pagamento de propina. Além disso, a operação investiga o repasse de R$ 3,5 milhões a uma empresa conectada ao núcleo familiar do senador.
Mensagens Sobre Negociação do Imóvel
Segundo a decisão do STF, em 26 de novembro de 2024, Wagner enviou a Lima o contato do gerente da construtora (Moura Dubeux) responsável pelo empreendimento denominado Poème Horto, localizado em Salvador, acompanhando as especificações do imóvel. Na mensagem, o senador destacou que a unidade tinha o número 1702 e o preço era R$ 2,45 milhões. No dia seguinte, ele enviou o material digital referente ao empreendimento.
Na sequência, Lima transmitiu as informações a Valério Marega Júnior, que está sendo identificado na investigação como um operador financeiro. A aquisição formal do apartamento foi registrada em nome da Epítome S.A., cujo representante é Luiz Antônio Lombardi, utilizando recursos originados de fundos relacionados à Reag e ao Hockenheim Fundo de Investimento. A Polícia Federal considera essa dinâmica compatível com a tentativa de ocultação do beneficiário final da negociação.
As discussões sobre o imóvel continuaram mesmo após a primeira fase da Compliance Zero. Em maio de 2025, Wagner solicitou a Lima os dados do proprietário formal do apartamento para a elaboração de um documento técnico, enviando uma mensagem que fora encaminhada por um de seus filhos. Lima facilitou o contato do senador com David Lopes Monteiro, identificado como operador jurídico associado à estrutura do Master. As movimentações documentais se estenderam pelos meses seguintes, com envolvimento de Guilherme Sodré, Daniel Monteiro, Márcio Domingues dos Santos e André Pissolito Campos.
É importante ressaltar que Daniel Monteiro já havia sido alvo da Polícia Federal em outras investigações, relacionadas ao repasse de imóveis para Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília. A coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo, investigou a possibilidade de que esse tipo de transação estivesse sendo utilizado para ocultar o destinatário final do bem, com o intuito de evitar que a operação fosse identificada como uma forma de propina.
Transferência de R$ 3,5 Milhões à Empresa Familiar
A decisão do STF também revela detalhes sobre a transferência de R$ 3,5 milhões à BN Financeira, uma empresa relacionada ao núcleo familiar de Wagner, operação que foi realizada pela PKL One Participações, a qual é dirigida por Andréa Lima Novaes, prima de Augusto Lima. Antes da operação, Eduardo Sodré Martins, enteado do senador, havia cobrado Lima por boletos que estavam vencidos. O operador atribuiu o atraso a questões decorrentes do fracasso na venda do Master ao BRB.
A BN Financeira é distinta da BK Financeira, empresa que pertence a Bonnie de Bonilha, também nora de Wagner, e que recebeu cerca de R$ 11 milhões do Master entre 2021 e anos subsequentes, por meio de um contrato voltado para a prospecção de operações de crédito consignado. Em resposta a questionamentos sobre a BK Financeira, Wagner negou qualquer envolvimento nas negociações entre a empresa e o banco.
Mandados de Busca e Apreensão
No total, estão sendo cumpridos 18 mandados de busca e apreensão que foram expedidos pelo ministro André Mendonça, em locais localizados na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. Além disso, existem medidas cautelares que incluem restrições de contato entre os investigados. No entanto, não foi solicitada a suspensão do passaporte de Wagner.
Lobby em Favor do Banco Master
A decisão do STF também relaciona Wagner a três frentes de interesse que envolvem o Master: a ampliação do crédito consignado, o aumento do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos e a supervisão da venda do banco ao BRB. No dia 4 de agosto de 2024, data em que a emenda sobre o fundo foi protocolada, Lima fez uma ligação para Wagner que durou mais de nove minutos antes de enviar o link da proposta.
A conexão entre Wagner e o que culminou na privatização da Cesta do Povo, uma rede de supermercados pública na Bahia, remonta à sua administração no governo estadual. Essa venda foi o que gerou o Credcesta, um cartão de crédito consignado que se tornou um dos principais produtos do banco controlado por Vorcaro.
Além disso, a Polícia Federal ainda apura se Wagner desempenhou um papel na aprovação da compra do Banco Master pelo BRB e na chamada emenda Master, que foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). Essa emenda tinha como proposta elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura oferecida pelo Fundo Garantidor de Crédito para investimentos em CDBs, uma modalidade que representa uma parte significativa das operações do Master.
Repercussão e Defesa
A nona fase da Compliance Zero também tem como alvo Augusto Lima, que está sendo descrito pelas investigações como o intermediário que facilitava várias das relações do Master com políticos, especialmente no âmbito do Congresso Nacional.
O Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC tentou entrar em contato com os advogados de Jaques Wagner, mas até o momento da publicação desta reportagem, não obteve resposta. Por sua vez, Augusto Lima, através de sua defesa, alegou que as ações da Polícia Federal naquele dia eram desnecessárias, já que ele havia permanecido à disposição das autoridades por um período de seis meses para esclarecer os fatos em investigação.
“De toda forma, as medidas contribuirão para evidenciar que os fatos apurados nesta fase da investigação são, sem dúvida, lícitos. Augusto Lima sempre atuou dentro dos parâmetros legais, mantendo um comportamento transparente, responsável e observando as normas pertinentes do sistema financeiro e da administração pública”, declarou a nota emitida pelos advogados Pedro Ivo Velloso, Eduardo Toledo e Sebástian Mello.
Em apoio às investigações, Edinho Silva, presidente nacional do PT, expressou sua confiança de que Wagner esclarecerá os fatos em questão.
Fonte: timesbrasil.com.br

