A guerra no Oriente Médio continua com um desfecho incerto, à medida que as discussões sobre a reabertura do Estreito de Ormuz se intensificam.
Diante do potencial término desse conflito, surge a pergunta que muitos se fazem após abastecer o veículo recentemente: quando os preços dos combustíveis retornarão aos níveis anteriores ao início da guerra?
A resposta parece não ser tão simples. A retomada dos preços anteriores não deve ocorrer brevemente, e há grande chance de que isso não aconteça neste ano, ou mesmo em um futuro próximo.
Diversos fatores precisam ser resolvidos antes que a situação se normalize, e alcançar uma paz duradoura com um país que foi alvo de bombardeios intensos é apenas a etapa inicial desse processo.
Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, declarou à CNN Internacional que “não devemos esperar que os preços voltem ao patamar de antes da guerra”.
O que acontece a seguir?
Caso o estreito seja reaberto, um complexo cenário logístico começará a se desenvolver. A seguir, são apresentados quatro passos que elucidarão esse processo:
Primeiro passo: Desobstruir os gargalos do estreito
Esse processo exigirá um tempo considerável, visto que os navios-tanque se deslocam em uma velocidade muito limitada. Inicialmente, é necessário que os aproximadamente 128 petroleiros que estão atualmente retidos no estreito consigam partir, transportando cerca de 160 milhões de barris de petróleo, conforme dados da Capital Economics. Essa ação permitirá que novos navios-tanque entrem no estreito, façam suas cargas e retornem.
De acordo com a análise de Victoria Grabenwöger, analista sênior de petróleo na Kpler, o retorno à capacidade total de tráfego dos navios-tanque poderá levar até três meses.
Segundo passo: Redução dos estoques
Navios vazios serão enviados primeiramente para retirar petróleo de armazéns que já estão saturados, visto que os produtores não dispunham de alternativas para estocar o produto.
Por outro lado, as refinarias demonstraram um comportamento prudente em relação ao armazenamento e não encheram suas reservas completamente. Essa decisão poderá reduzir o tempo de reativação das operações. Entretanto, estoques acumulados ainda atrasarão a recuperação da produção de petróleo ao seu nível total.
Terceiro passo: Reiniciar a produção
Durante o conflito, os poços de petróleo na região do Oriente Médio foram majoritariamente desativados. A retomada das atividades não é um processo rápido. Trata-se de um desafio técnico complexo que envolve considerações de engenharia e esforços laborais que podem levar várias semanas para serem completados.
É fundamental reiniciar a produção de maneira gradual para evitar que os reservatórios de petróleo bruto colapsem, o que exigiria perfurações e reparos adicionais. O reequilíbrio entre água e gás injetados nos poços é uma tarefa que demanda precisão e cuidado.
Uma vez que os poços na região são extensos e estão situados próximos uns dos outros, a coordenação entre diversas empresas e países será essencial para manter a consistência na injeção de água e na pressão do gás entre os diferentes poços.
Quarta etapa: Realizar reparos
O conflito danificou várias refinarias, além de instalações produtoras de gás e petróleo. Algumas empresas do setor afirmaram que os reparos na infraestrutura crítica afetada podem levar anos para serem finalizados.
A produção total, que incluía 12 milhões de barris diários de petróleo bruto e 3 milhões de barris de produtos refinados, foi interrompida em diversas áreas do Oriente Médio, com foco na Arábia Saudita e no Iraque, de acordo com a Kpler. A recuperação desse volume não será uma tarefa simples.
As grandes questões
Todos esses processos pressupõem que o conflito tenha terminado e que não haja novas perturbações no estreito. Como é sabido, fazer suposições pode ser arriscado.
As semanas recentes foram marcadas por diversas promessas de paz que não se concretizaram, levando os investidores a manter certa elevação nos preços do petróleo. O ceticismo permanece: mesmo após uma redução superior a 8% no preço do petróleo na sexta-feira (17), o valor do Brent ainda figura acima de US$ 90, o que representa um aumento de cerca de US$ 20 em comparação ao período pré-conflito.
Os investidores continuarão a observar com atenção os desdobramentos da situação nas próximas semanas e meses, a fim de avaliar se o Irã está realmente disposto a abrir mão do estreito, que tem sido uma carta na manga utilizada para aumentar sua influência econômica sobre os Estados Unidos.
Caso essa abertura ocorra, até que ponto o Irã permitirá a passagem de navios sem a cobrança de pedágio? O governo dos EUA seguirá mantendo o bloqueio ao petróleo iraniano, ou aceitará a exigência do Irã pela suspensão do bloqueio como uma condição para a paz?
Além disso, as empresas de navegação precisam se sentir seguras para realmente enviar seus navios pelo estreito.
Os preços dos seguros dispararam, e as seguradoras podem não estar dispostas a oferecer coberturas acessíveis enquanto a situação ainda apresentar incertezas. A Lloyd’s de Londres não comentou sobre o assunto.
O Irã também emitiu ameaças de minar o estreito e, na última sexta-feira, determinou que os navios navegassem por uma rota específica, apenas após receber permissão para fazê-lo. Portanto, os navios podem hesitar em aceitar esse risco.
Nas semanas seguintes, é provável que os navios-tanque iniciem um processo de avaliação da segurança da navegação, a fim de confirmar se as operações poderão ser retomadas sem incidentes, conforme relatado por Grabenwöger. As empresas de navegação provavelmente buscarão escoltas navais e coordenação para garantir a segurança durante a travessia.
A Hapag-Lloyd, uma empresa alemã de navegação, considerou a reabertura do estreito uma “boa notícia”, afirmando que “prefere cruzar o estreito o mais rápido possível”, desde que suas preocupações relacionadas a seguros e desembaraços aduaneiros sejam resolvidas.
Por outro lado, a Maersk, gigante do transporte marítimo, informou que suas orientações para as embarcações não foram alteradas desde o anúncio da reabertura, embora tenha destacado que isso pode mudar conforme a evolução dos acontecimentos.
Helima Croft, chefe global de estratégia de commodities da RBC Capital Market e ex-analista da CIA, comentou que “os detalhes do acordo terão papéis cruciais”. “Se o Irã continuar com a palavra final sobre a passagem, algumas seguradoras e empresas de transporte podem hesitar em reiniciar suas operações rapidamente.”
O que acontecerá com os preços do petróleo e do gás?
Os investidores buscarão estabelecer um novo patamar para o preço do petróleo bruto, possivelmente na faixa de US$ 80, sem que caia muito abaixo desse nível, conforme afirmado por Dan Pickering, fundador e diretor de investimentos da Pickering Energy Partners.
Ele acrescentou que “provavelmente haverá uma série de questões que tornarão o mercado extremamente volátil”.
Atualmente, o mercado futuro projeta que os preços do petróleo Brent permanecerão próximos de US$ 77 até o final do ano, sem indicação de que retornarão aos níveis anteriores à guerra antes de 2029.
Historicamente, o patamar do Brent precisa estar em torno de US$ 60 para que o preço da gasolina fique em US$ 3 por galão, conforme ressaltou Michael Green, estrategista-chefe da Simplify Asset Management. No entanto, o mercado não prevê que isso aconteça antes de 2030.
A duração desse cenário de paz e a evidência da retomada da produção de petróleo são fatores que poderão contribuir para a redução dos preços do petróleo.
Entretanto, todas essas considerações estão repletas de incertezas.
“Em essência, nos sentiríamos mais seguros sobre as perspectivas de um acordo de paz se estivéssemos recebendo sinais positivos de ambas as partes”, afirmou Thierry Wizman, estrategista global de câmbio e taxas de juros do Macquarie Group. “A confiança na recuperação do mercado, neste momento, baseia-se, principalmente, na confiança nas ações de Trump.”
Fonte: www.cnnbrasil.com.br

