Relação entre a Bancada Ruralista e o Governo
A relação da bancada ruralista com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido historicamente conturbada e, no atual mandato, essa relação foi praticamente rompida. Com a sucessão de Jair Bolsonaro (PL), que implementou diversas medidas e ações favoráveis ao agronegócio, Lula optou por Carlos Fávaro (PSD) como ministro da Agricultura.
Fávaro e a Falta de Interlocução
O senador mato-grossense, Carlos Fávaro, rapidamente se tornou uma figura sem interlocução no Congresso. Durante mais de três anos de seu mandato, ele dificultou qualquer possibilidade de trégua entre o setor agropecuário e o governo, conforme declarado por parlamentares e líderes ouvidos pela reportagem.
Em abril de 2023, em um clima conturbado após a posse de Lula e a tentativa de golpe por parte de bolsonaristas, Fávaro foi retirado da lista de convidados para a abertura da Agrishow, a mais importante feira de agronegócios da América Latina, que aconteceu em Ribeirão Preto (SP). Em seguida, ocorreu uma ruptura entre ele e o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (PP-PR).
Interlocução durante o Governo
O deputado federal Pedro Lupion, principal representante da bancada com 344 parlamentares, que é composta por 294 deputados e 50 senadores, não mencionou o nome de Fávaro em sua entrevista ao Money Times. Ele ressaltou que o único elo entre a FPA e o governo é o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB).
Na visão de Lupion, “Alckmin é a única voz com que temos interlocução com o governo, foi governador do Estado de São Paulo e tem um entendimento sólido do nosso setor produtivo. Lamentavelmente, ele é vice do governo errado”, resumiu.
Aproximação com Flávio Bolsonaro
Para o presidente da FPA, tendo a bancada “majoritariamente contrária ao PT” e sem a presença do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a aproximação dos ruralistas com Flávio Bolsonaro (PL), conforme apontado por seu posicionamento favorável nas pesquisas, é algo natural.
“No Paraná, no meu estado, a aliança do meu partido [PP] com Ratinho Junior tem avançado. Caso ele decida ser candidato a presidente pelo PSD, é algo a ser considerado. Entretanto, no segundo turno, estaremos com qualquer candidato que se oponha ao PT”, declarou.
Decano da FPA
Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), considerado o “decano da FPA”, está no quinto e último mandato como deputado federal. Ele acredita que o nome do governador Tarcísio teria uma aceitação unânime entre os representantes do agronegócio e alguns parlamentares. Contudo, uma vez que o governador paulista parece fora da disputa pela Presidência, Ratinho Junior e Flávio Bolsonaro podem se tornar opções viáveis para o setor caso a polarização entre eles e Lula permaneça.
Jardim, que foi secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo entre 2015 e 2018 e trabalhou durante o governo de Geraldo Alckmin, elogiou a atuação do político. Ele destacou o decreto assinado neste mês que regulamenta os procedimentos de investigação e aplicação de salvaguardas no acordo entre Mercosul e União Europeia.
Críticas a Fávaro
Apesar dos elogios a Alckmin, Jardim se uniu ao coro de críticas direcionadas ao ministro da Agricultura. “Alckmin fez sinais positivos de conexão com o setor e se comunicou bem com a bancada, além de atuar de forma efetiva em questões externas. Em contrapartida, Fávaro sistematicamente tem agido contrariamente. Ele não defendeu políticas de financiamento, seguro rural e pesquisa”, afirmou Jardim.
Outros parlamentares da bancada ruralista elogiaram até mesmo o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, que é deputado do PT e vinculado à ala mais à esquerda do partido. Este foi mencionado como um ministro que criou um diálogo mais aberto com os ruralistas do que Fávaro.
“O Paulo Teixeira foi muito mais acessível do que o Fávaro”, comentou um deputado. Fávaro foi contatado várias vezes por meio de sua assessoria de imprensa desde a semana anterior, mas não respondeu aos pedidos de entrevista. Há informações de que ele deve deixar o cargo e retornar ao Senado para tentar a reeleição por Mato Grosso.
Possível Sucessor para o Ministério da Agricultura
Um dos nomes cogitados para assumir o Ministério da Agricultura em um eventual governo Lula 4 é André de Paula, atual ministro da Pesca e Aquicultura. Com seis mandatos como deputado federal, o experiente parlamentar pernambucano se apresenta como um contraponto à gestão de Fávaro perante os ruralistas.
“Ele é uma boa pessoa, foi deputado do PFL e colega do meu pai [o ex-deputado federal Abelardo Lupion]. Qualquer indivíduo com interesse real em defender o setor agropecuário é valioso”, destacou Pedro Lupion, da FPA.
“André de Paula possui muito mais habilidade para dialogar do que Fávaro”, completou Jardim. Até mesmo auxiliares do atual ministro elogiaram o possível sucessor. “O André é uma excelente opção, um nome forte”, afirmou Guilherme Campos Júnior, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e ex-deputado federal.
Assim como Fávaro, Campos deverá desincompatibilizar-se do cargo até abril para candidatar-se nas próximas eleições, possivelmente à vaga de deputado estadual em São Paulo.
Aproximação Tardia com o Agronegócio
No setor privado, a percepção generalizada é que o governo Lula, mesmo que tardiamente, buscou se reaproximar do agronegócio, especialmente no tocante aos interesses dos exportadores. Essa reconexão é vista como um esforço, na avaliação de empresários e executivos, com a chegada do publicitário Sidônio Palmeira ao cargo de ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República em janeiro de 2025.
Um dos momentos mais significativos dessa reaproximação foi a participação de representantes do setor na comitiva que acompanhou Lula em visitas à Índia e à Coreia do Sul, realizada em fevereiro. A comunicação após a viagem foi considerada “excelente” por um executivo de uma associação que fez parte da comitiva, destacando que a presença do agro foi valorizada em termos narrativos, sendo que o presidente defendeu abertamente o setor, relembrando o papel positivo do primeiro mandato.
Dificuldades Persistentes
Entretanto, conforme mencionado pelo representante, pode ser tarde demais para Lula conquistar o apoio dos ruralistas em busca de um quarto mandato. “O candidato ideal seria Tarcísio. No entanto, mesmo sem o governador paulista, está claro que o setor se unirá a qualquer candidatura que represente a oposição”, concluiu.
Fonte: www.moneytimes.com.br

