O anúncio da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos ao Brasil desencadeou uma reação coordenada do setor produtivo, intensificando a pressão dos empresários sobre o governo brasileiro. Entidades do setor industrial e do agronegócio exigem uma resposta técnica e pragmática que priorize a negociação, evitando a politicização da disputa comercial.
F Federações industriais, associações e confederações concordam que a nova tarifa prejudica a competitividade do Brasil, ameaça contratos e investimentos, e pode resultar na substituição de fornecedores brasileiros por concorrentes de outros países por parte de compradores americanos.
Algumas entidades, no entanto, atribuem a deterioração da situação a ruídos diplomáticos, discursos políticos e uma falta de pragmatismo nas relações com Washington.
A nova tarifa terá efeito a partir de 22 de julho. De acordo com o governo federal, aproximadamente 18% das exportações brasileiras para os Estados Unidos serão afetadas, totalizando cerca de US$ 7,4 bilhões, com base no panorama de 2024. Setores como madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, cerâmicos, calçados e açúcar estão entre os mais impactados.
Indústria critica politização e cobra negociação
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) foi uma das entidades que se manifestou de forma mais contundente contra as tarifas. A federação argumentou que a escolha do governo brasileiro por “ruídos diplomáticos desnecessários, críticas pessoais, discursos eleitorais e desalinhamento político” comprometeu uma relação bilateral estabelecida ao longo de mais de dois séculos.
De acordo com a Fiesp, a retaliação poderia ter sido evitada por meio de uma abordagem técnica e pragmática. A entidade defendeu a continuidade da diplomacia empresarial para tentar reverter a tarifa ou expandir a lista de exceções.
“O mercado norte-americano é o principal destino de produtos brasileiros de alto valor agregado. Este novo ‘pedágio’ imposto às exportações se soma à crônica realidade enfrentada por nossas empresas”, comentou Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) também adotou uma postura semelhante. A entidade enfatizou a “forte evidência de motivação política” por trás da decisão dos Estados Unidos, mas fez um apelo para que o governo brasileiro evite respostas políticas e mantenha um tom “sereno, seguro e sensato”.
Segundo Rafael Cervone, presidente do Ciesp e primeiro vice-presidente da Fiesp, a radicalização do discurso e a ligação do tema ao calendário eleitoral “não favorecem a construção de soluções técnicas e justas”.
A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) também solicitou uma ação governamental mais decisiva, “livre de influências políticas” e focada em negociações diplomáticas. O setor madeireiro, já afetado pelas tarifas anteriores, teme que o novo custo comprometa relações comerciais estabelecidas por décadas, além de investimentos, produção e empregos.
No âmbito do agronegócio, a pressão também se fez notar. Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), declarou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC que a identidade dos presidentes ou membros dos governos não deveria influenciar a relação comercial.
“Precisamos sentar e negociar. Os Estados Unidos são nossos clientes. Não importa quem seja o presidente ou o secretário de Estado”, afirmou.
Empresas alertam para contratos, empregos e perda de mercados
Os efeitos esperados variam entre os diversos setores, mas as projeções indicam impactos concentrados em cadeias que dependem fortemente do mercado americano.
A Farsul estima que as perdas excedam US$ 3,5 bilhões nas cadeias exportadoras. De acordo com a entidade, a tarifa afetará 38% dos produtos brasileiros enviados aos EUA, impactando mais severamente madeira, fumo, couro, calçados, sebo bovino e mel.
Mesmo produtos com menor representatividade na pauta nacional podem enfrentar graves consequências regionais. Quanto ao mel, cerca de metade das exportações brasileiras destinam-se aos Estados Unidos.
Em Santa Catarina, a Federação das Indústrias do Estado (Fiesc) calculou que a primeira rodada de tarifas já resultou na perda de aproximadamente 7,6 mil empregos formais. Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, as exportações catarinenses para os Estados Unidos caíram 38,29%, de uma média mensal de US$ 141 milhões para US$ 87 milhões.
A Fiesc estima que um novo ciclo tarifário pode resultar em uma retração próxima de 40% nas vendas para o mercado americano, considerando que Santa Catarina tem uma exposição superior à média nacional devido ao peso dos produtos manufaturados em sua pauta.
No Espírito Santo, a Federação das Indústrias (Findes) informou que 27,5% das exportações do estado foram destinadas aos Estados Unidos no primeiro semestre, com uma queda de 17,2% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
O setor de calçados também revisou suas projeções. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) agora espera uma queda de 7,1% nas exportações totais em 2026, em comparação com uma retração projetada anteriormente de 3,6%.
De acordo com a entidade, a tarifa aumenta a diferença de preços entre o calçado brasileiro e os concorrentes asiáticos, em um mercado americano que consome mais de 2 bilhões de pares por ano, mas produz internamente apenas cerca de 20 milhões.
Máquinas enfrentam dificuldade para substituir compradores
A indústria de máquinas e equipamentos prevê uma queda de 11% nas exportações em 2026. Os Estados Unidos representam o principal destino externo desse setor, com compras que totalizarão US$ 3,2 bilhões em 2025. Em contrapartida, as vendas americanas ao Brasil alcançaram aproximadamente US$ 4,8 bilhões.
Em entrevista ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Patrícia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), comentou que a diversificação de mercados é especialmente desafiadora para esse setor.
Máquinas são bens de alto valor agregado, frequentemente customizados e que passam por longos processos de certificação e homologação. Além disso, a relação com o comprador geralmente é construída ao longo de períodos de médio a longo prazo.
“Não é viável, ou é muito mais complicado no nosso caso, realizar essa reorientação para outros mercados em comparação com o que se pode perder para os Estados Unidos”, destacou.
A Abimaq reconhece que o Plano Brasil Soberano e as linhas de financiamento podem ser benéficos, mas pode ser que não sejam suficientes. O setor defende a adoção de crédito competitivo, instrumentos de apoio à exportação e medidas para diminuir a carga tributária, como a ampliação do Reintegra.
A posição da Confederação Nacional da Indústria (CNI) é semelhante. Kleber Pacheco de Castro, gerente de Política Econômica da entidade, indicou que fundos constitucionais ajudam a fortalecer as empresas e financiar a aquisição de máquinas e a expansão de fábricas, mas não eliminam o impacto do aumento das tarifas.
“É improvável que um crédito mais barato consiga compensar o efeito que essa tarifa pode ter na indústria brasileira voltada para a exportação”, afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
Exceções mostram resultado da mobilização empresarial
Apesar das críticas, as entidades que conseguiram incluir produtos na lista de exceções ressaltaram que a mobilização técnica junto a empresas e associações americanas gerou resultados positivos.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) anunciou que 63,5% do valor exportado pelo agronegócio brasileiro para os Estados Unidos ficará isento da tarifa adicional. A lista de exceções foi ampliada para 2.126 linhas tarifárias, incluindo produtos como pescados, mel e café solúvel.
No entanto, itens como madeira, arroz, uva, ovos e açúcar continuam sendo afetados. Esses produtos representaram cerca de US$ 4,6 bilhões em vendas ao mercado americano em 2025.
A Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca) atribuiu a isenção do setor ao trabalho colaborativo com o National Fisheries Institute e empresas importadoras nos Estados Unidos, projetando um crescimento de aproximadamente 10% nas exportações em relação a 2025.
O suco de laranja também foi isento da nova sobretaxa. Segundo a CitrusBR, os Estados Unidos correspondem a 48% das exportações brasileiras desse produto na safra 2025/2026, com receita de US$ 1,08 bilhão.
No segmento de rochas naturais, o quartzito foi preservado, enquanto granitos, mármores, ardósias, xistos e pedra-sabão continuam tarifados. Fábio Cruz, vice-presidente da Centrorochas, destacou que os Estados Unidos concentram cerca de 70% das exportações brasileiras de produtos semiacabados do setor.
“Estamos preocupados porque sinto que isso pode continuar. A situação ainda tem muito a evoluir”, afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
Reciprocidade preocupa empresas
O governo anunciou que iniciará imediatamente os procedimentos previstos pela Lei da Reciprocidade e reabrirá discussões no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). Também se comprometeu a fortalecer o Plano Brasil Soberano e reunir os setores afetados para debater apoio financeiro e diversificação de mercados.
No entanto, a possibilidade de retaliação é vista com cautela pelo setor produtivo.
Veronica Winter, coordenadora do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), apontou que qualquer resposta deve considerar os efeitos que pode ter sobre empresas brasileiras dependentes de insumos importados dos Estados Unidos.
“É essencial avaliar cuidadosamente quais produtos serão afetados, para que não haja um efeito reverso ao que buscamos, que é melhorar tanto as economias quanto as relações bilaterais”, afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.
A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) também sustentou que as divergências devem ser tratadas por meio de negociação, diálogo institucional e mecanismos internacionais. A entidade acrescentou que a crise ressalta a necessidade de o Brasil avançar em sua agenda interna de competitividade.
A Fiesp e o Ciesp colocaram como prioridade nessa discussão a redução do chamado Custo Brasil, que envolve a diminuição de juros, o equilíbrio fiscal, a segurança jurídica, a reforma administrativa e a melhoria da infraestrutura.
Fonte: timesbrasil.com.br

