Terminam Audiências do USTR Sobre Investigação Contra o Brasil
As audiências do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) que investigam supostas práticas prejudiciais à relação bilateral entre os Estados Unidos e o Brasil encerram nesta terça-feira (7). As discussões começaram na segunda-feira (6), e o setor do agronegócio teve participação marcante, adotando um tom técnico e apresentando poucas críticas ao Brasil. A narrativa de defesa levantada por representantes norte-americanos sugere uma diminuição das tensões entre os setores privados, conforme apurado pela CNN Agro.
Discussões com Nível Técnico Elevado
Paulo Pupo, superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), destacou que as discussões no primeiro dia foram caracterizadas por um “nível técnico mais elevado e menos perguntas capciosas”, o que favoreceu um diálogo mais seguro com as autoridades americanas. Nesta terça-feira, além do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), representantes de diversos setores industriais brasileiros estarão presentes.
Participantes e representantes de entidades que comparecerão à audiência relataram à CNN Money que a defesa do comércio exterior brasileiro incluirá, entre outras estratégias, a contestação da validade da investigação, além de se enfatizar a complementaridade entre negócios brasileiros e norte-americanos e a longa tradição que sustenta o relacionamento entre exportadores brasileiros e compradores dos Estados Unidos.
Complementaridade entre os Mercados
Um dos pontos abordados é que a produção brasileira complementa a demanda dos Estados Unidos, atendendo a necessidades que não são supridas pela produção local. Produtos brasileiros, em muitos casos, não competem de forma direta com os fabricados nos EUA, conforme explicações de Pupo e Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais), entidade que é parte da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais).
A presença do setor de calçados brasileiro, que tem nos EUA o principal cliente, é um exemplo dessa interdependência. A produção americana não consegue suprir a demanda do mercado interno, necessitando assim de fornecedores externos. Segundo uma fonte do setor, representada nesta audiência pela Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), a expectativa é de que a China ganhe uma fatia ainda maior do mercado norte-americano, enquanto o Brasil poderá sair lesado.
A interdependência entre os dois países também é mencionada por Patricia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), que participará da reunião do USTR. Ela observa que 82% das transações em seu setor ocorrem entre empresas vinculadas a um mesmo grupo, destacando que qualquer impacto em um dos lados afeta o outro.
“O comércio é complementar e integra uma cadeia produtiva. Portanto, qualquer efeito sobre ela resulta em desorganização e prejuízo para ambas as partes”, explica Gomes.
Relação Comercial Tradicional
Fausto Cançado aponta a “tradição” como um aspecto fundamental nas relações comerciais entre brasileiros e norte-americanos. O Brasil, por exemplo, fornece ferro-gusa, um insumo essencial para a produção de aço nos EUA. Atualmente, os EUA produzem apenas 6% de sua demanda por ferro-gusa, enquanto as exportações brasileiras superam 60% desse consumo, de acordo com dados do presidente do Sindifer.
A eventual aplicação de uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros poderia encarecer os preços para os consumidores norte-americanos, especialmente se os importadores não conseguirem desenvolver novos mercados, afirma Paulo Pupo. Ele também menciona um consenso entre produtores e compradores sobre a falta de sentido em taxar produtos brasileiros, dado “a relação comercial solidificada ao longo de várias décadas”.
Segundo Patricia Gomes, o insumo brasileiro é “difícil de substituir”, o que impactaria não só a indústria, mas também setores como agricultura, energia e infraestrutura nos Estados Unidos. Ela destaca que maquinário não é um bem de consumo, mas sim um investimento, sugerindo que a relação comercial exige negociações e entendimentos a médio e longo prazo, já que muitos equipamentos demandam certificações específicas, tornando sua substituição um desafio.
“Os Estados Unidos estão buscando fortalecer sua indústria, mas a imposição de tarifas prejudica esse objetivo”, conclui, ressaltando a imprevisibilidade que medidas desse tipo podem causar nos negócios. A Abimaq tem aconselhado seus associados a considerar a antecipação de embarques para os EUA, a fim de mitigar riscos decorrentes de possíveis mudanças repentinas.
Perspectivas para as Audiências
A audiência desta terça representa a última oportunidade para a sociedade civil manifestar seu posicionamento para a Casa Branca via canais oficiais. Paulo Pupo considera esse momento crucial para avaliar a disposição das autoridades americanas. Um interlocutor do setor empresarial observa que a principal questão é discutir o relatório preliminar, indicando que incluir fatores políticos e ideológicos não é produtivo nesse contexto.
Após as reuniões, Pupo nota que o setor privado não pode agir de maneira autônoma, pois o desfecho desse processo dependerá das decisões governamentais. “Nosso papel tem suas limitações; o desfecho é responsabilidade do governo”, afirma.
Além das audiências, o governo federal continua a buscar um canal de negociação com Washington. A decisão final sobre a aplicação das tarifas, resultante da investigação comercial contra o Brasil, está prevista para ser anunciada no dia 15 de julho. Entretanto, o setor privado admite que reverter a imposição da sobretaxa será uma tarefa complicada.
Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), que representa a indústria nas audiências, mencionou ter recebido informações claras durante visitas ao Departamento de Estado e ao USTR, indicando que os impostos e tarifas serão implementados, e que é improvável reverter essa decisão nesta fase.
Assim, as defesas de cada setor estão concentradas na inclusão de seus produtos na lista de exceções. Contudo, há um entendimento de que as audiências não deverão ser decisivas, uma vez que a decisão final ficará a cargo do presidente dos Estados Unidos, e só poderá ser alterada mediante negociações efetivas entre Brasília e Washington. O governo brasileiro está focado no diálogo, mas enfrenta a dificuldade de que as demandas dos EUA não estão claras.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br