Balanços Trimestrais e a Proposta de Trump
Os balanços trimestrais tornaram-se uma prática comum entre investidores que monitoram empresas listadas na bolsa de valores. Entretanto, uma recente postagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trouxe à tona dúvidas sobre esse modelo adotado tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.
A Proposta de Trump
Trump, em suas redes sociais, sugeriu que as empresas e corporações deixassem de ser obrigadas a reportar seus resultados de forma trimestral. Em vez disso, ele propôs que as companhias divulguem seus relatórios a cada seis meses. De acordo com sua perspectiva, essa mudança permitiria que as empresas economizassem tempo e recursos financeiros, uma vez que a elaboração de relatórios, a organização de reuniões com analistas e a coordenação da divulgação envolvem custos significativos.
Trump comentou: "Isso vai economizar dinheiro e permitir que os gestores foquem em administrar melhor suas empresas." Ele também ressaltou: “Você já ouviu alguma vez que a China tem uma visão de 50 a 100 anos na gestão de uma empresa, enquanto nós administramos nossas companhias com base trimestral? Isso não é bom!” Ressalta-se que essa não é a primeira vez que Trump levanta essa questão; ele já havia abordado esse tema em 2018.
Resposta da Presidente da Nasdaq
A presidente-executiva da Nasdaq, Adena Friedman, respondeu a Trump ao defender que as empresas de capital aberto mantenham a opção de apresentar relatórios trimestrais ou semestrais. Em uma publicação no LinkedIn, ela agradeceu a Trump por levantar um dos principais desafios enfrentados pelos líderes das empresas: a pressão de curto prazo exacerbada pelos relatórios trimestrais.
Friedman argumentou que reduzir a carga e os custos compreendidos na operação de empresas de capital aberto poderia injetar mais energia nos mercados de capitais dos EUA, estimulando o crescimento econômico. A Nasdaq já havia advogado pela simplificação das exigências de relatórios, sugerindo que as empresas tenham a possibilidade de apresentarem relatórios semestrais em vez de trimestrais. Atualmente, as normas impostas pelo principal órgão regulador de Wall Street exigem a divulgação dos resultados financeiros a cada 90 dias. A mudança para a divulgação semestral alinharia os EUA a práticas adotadas no Reino Unido e em vários países da União Europeia.
Reformas no Setor
No passado, diversos executivos de Wall Street também solicitaram reformas nas regulações sobre empresas de capital aberto. Em 2018, Jamie Dimon e Warren Buffett publicaram um artigo de opinião no Wall Street Journal, onde afirmaram que a visão de curto prazo das empresas prejudicava a economia dos Estados Unidos.
Opiniões sobre os Balanços Trimestrais
De acordo com Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, existem bons argumentos a favor das declarações de Trump. Ele menciona que muitas decisões no mercado, bem como dentro das empresas, são tomadas com um olhar mais voltado para o longo prazo. Cruz destaca: “Não vemos nenhuma companhia pagando bônus trimestral, por exemplo.”
Ele também critica os balanços trimestrais, afirmando que eles criam incentivos desfavoráveis. Para ele, os custos financeiros envolvidos na interrupção das operações para preparar relatórios e conferências de resultados são significativos. Além disso, ele observa que essa prática pode gerar uma tendência de artificialidade na gestão, fazendo com que o foco recaia sobre resultados de curto prazo.
Porém, Cruz também levanta um ponto de atenção: a possível falta de transparência das empresas na ausência de balanços trimestrais. Ele declara: “Concordo que os balanços trimestrais aproximam a empresa do investidor, permitindo que ele entenda melhor os pontos positivos e negativos.” Entretanto, acredita que essa relação poderia ser construída mesmo sem a obrigatoriedade do reporte trimestral.
O analista acrescenta que muitas empresas familiares relutam em abrir seu capital, especialmente devido a essa pressão. Segundo sua análise, um empresário tende a considerar horizontes de tempo anuais ou plurianuais, aceitando a variação de resultados, uma vez que um trimestre ruim pode ser parte natural do ciclo de negócios.
No entanto, no ambiente do mercado de capitais, os investidores podem ser implacáveis. Quando os resultados não corresponderem às expectativas, as ações costumam registrar quedas acentuadas. Cruz exemplifica essa situação com a Raia Drogasil (RADL3), que enfrentou intensos questionamentos após divulgar um trimestre com desempenho inferior ao esperado.
Nesse contexto, enquanto a ação da Raia Drogasil recuperou parte das perdas, a queda acumulada no ano ficou em quase 40% após os números do primeiro trimestre, reduzindo-se para cerca de 20% nos períodos subsequentes.


