Encontro entre Estados Unidos e China
SINGAPURA – Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, se encontrarem em Pequim na quinta-feira, eles e suas equipes discutirão uma ampla gama de questões. O agenda abrange comércio, tecnologia, controles sobre exportações de terras raras, Taiwan, a guerra no Irã e inteligência artificial. A decisão da China de suspender a exportação de uma ampla variedade de terras raras e ímãs relacionados, além da proibição de semicondutores da Nexperia China, desestabilizou cadeias de suprimentos centrais para os fabricantes de automóveis globais, acarretando consequências políticas e econômicas em toda a Europa, Japão e Coreia do Sul.
“Praticamente todos têm um interesse no resultado desse encontro”, afirmou Chad Bown, um pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics. Isso também significa que outros líderes mundiais e partes interessadas provavelmente estarão observando de perto — mesmo que não estejam na sala durante as decisões que podem ter consequências de longo alcance para eles.
À medida que a cúpula se aproxima, ambos os lados têm intensificado a pressão, com Washington acusando Pequim de conduzir campanhas em “escala industrial” para roubar tecnologia americana de inteligência artificial, enquanto a China ordenou que suas empresas não cumprissem as sanções dos EUA ao petróleo iraniano e recebeu o ministro das Relações Exteriores do Irã em visita. A trajetória futura da relação — se será em direção à cooperação ou ao confronto — terá consequências massivas para a economia global.
“O mundo inteiro espera que os dois líderes cheguem a um acordo sobre pelo menos um subconjunto de questões… e encontrem maneiras de evitar uma nova escalada de tensões em relação aos demais pontos”, declarou Eswar Prasad, professor de economia da Universidade Cornell, à CNBC. O resultado pode ter grandes implicações para o comércio global, a geopolítica e “a própria sobrevivência da ordem baseada em regras”.
Uma cúpula polêmica que aprofunda as tensões pode prolongar a volatilidade econômica e geopolítica, comprometendo o comércio e o crescimento global, acrescentou Prasad.
O encontro, originalmente agendado para março, foi adiado após Washington se envolver em sua guerra contra o Irã, que provocou o mais severo choque energético da história. Trump sinalizou sua intenção de convidar Xi para visitar Washington ainda este ano, o que marcaria a primeira viagem do líder chinês à capital americana em 10 anos.
A semana toda pode ser movimentada. Altos funcionários, incluindo o vice-premiê chinês He Lifeng e o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, se reunirão na Coreia do Sul na quarta-feira para discutir questões econômicas e comerciais, antes da cúpula de Pequim.
Eles podem buscar garantir que recentes escaladas — incluindo sanções dos EUA sobre refinarias chinesas que compram petróleo iraniano e as contramedidas sem precedentes de Pequim — não inviabilizem uma trégua alcançada na Coreia do Sul no ano passado, disse Gabriel Wildau, diretor-gerente do Teneo, uma consultoria de risco político.
Tensões em Taiwan
Tanto os EUA quanto a China afirmaram que Taiwan será um dos principais tópicos da agenda. Pequim supostamente pressionou a administração Trump para reduzir seus compromissos de segurança e revisar a política oficial dos EUA em relação à ilha. A China reivindica a ilha, que é governada democraticamente, como parte de seu território — uma reivindicação que Taiwan rejeita — e há muito critica as vendas de armas dos EUA para Taipei.
Qualquer suavização retórica por parte de Trump, mesmo que ambígua, seria “o resultado mais desestabilizador” da cúpula, afirmou Bonnie Glaser, diretora do programa Indo-Pacífico do German Marshall Fund dos Estados Unidos. “Um acordo tácito ou explícito em que Washington pareça conceder uma esfera de influência a Pequim sobre Taiwan”, em troca de concessões em outras áreas, poderia encorajar a China a tomar medidas mais assertivas para minar a autonomia de Taiwan, disse Glaser.
Em uma ligação com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, no dia 30 de abril, o principal diplomata da China, Wang Yi, descreveu Taiwan como “o maior ponto de risco” na relação bilateral, urgentemente pedindo a Washington que “mantenha sua promessa e faça as escolhas certas para abrir novos espaços para a cooperação entre China e EUA”.
“Ambos os países entendem que não é do interesse de nenhum de nós ver algo desestabilizador acontecendo naquela parte do mundo”, disse ele.
O delicado equilíbrio do Sudeste Asiático
Os governos do Sudeste Asiático estarão observando atentamente qualquer mudança drástica nas tarifas dos EUA sobre os bens chineses em comparação com os de suas próprias exportações, disse Stephen Olson, pesquisador sênior do ISEAS-Yusof Ishak Institute. “Se os níveis de tarifas sobre as exportações chinesas caírem, a lógica comercial para a realocação da produção da China para países como o Vietnã também diminuirá”, afirmou.
O Estreito de Ormuz também é uma questão importante para a região. Nações do Sudeste Asiático, que dependem fortemente do petróleo do Golfo, suportaram o peso do choque energético provocado pelo conflito no Oriente Médio. Oficiais de Singapura alertaram repetidamente sobre o impacto econômico, enquanto pedem por passagem livre através do estreito.
Se Trump e Xi chegarem a um acordo sobre um esforço conjunto para reabrir o estreito, isso poderia oferecer alívio imediato à crise energética — embora alguns analistas afirmem que tal desfecho ainda seja uma aposta arriscada.
Japão e UE: possíveis perdas
O sucesso da cúpula pode, na verdade, resultar em retrocessos para Bruxelas e Tóquio. Um potencial acordo energético em que Pequim concorde em comprar mais petróleo e gás natural dos EUA poderia elevar os preços globais das commodities, disse Matt Gertken, estrategista-chefe do BCA Research. Além disso, qualquer progresso nas negociações comerciais — incluindo compromissos da China para investimentos diretos na economia americana — pode deslocar a participação de mercado do Japão e da Europa, acrescentou.
A expectativa da Rússia
A cúpula também será acompanhada de perto em Moscou, onde o apoio da China se tornou cada vez mais importante. O último encontro presencial entre Trump e Xi, realizado em outubro, levou os oficiais russos a reafirmar rapidamente a aliança de Moscou com Pequim. “A Rússia estaria nervosa com uma melhora geral nas relações entre EUA e China”, disse Dennis Wilder, ex-oficial de inteligência dos EUA e professor da Universidade de Georgetown. É possível que um resultado da cúpula resulte na redução do apoio da China aos esforços de guerra da Rússia na Ucrânia, acrescentou Wilder.
O presidente russo, Vladimir Putin, deve visitar Pequim na próxima semana, poucos dias após a partida de Trump.
Fonte: www.cnbc.com

