Presidência dos EUA e Discursos ao Congresso
BEIJING — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evitou mencionar diretamente a China em seu discurso sobre o Estado da União, realizado na terça-feira, poucas semanas antes de sua viagem programada a Pequim.
Este discurso se destacou por ser o mais longo já feito por um presidente americano, abordando diversos assuntos, que variaram desde inflação e tarifas até os recordes do mercado de ações. No entanto, uma observação notável foi a ausência de menções diretas à China, exceto por uma referência à “tecnologia militar russa e chinesa” que protegia o presidente venezuelano Nicolás Maduro durante uma operação que resultou na captura do líder estrangeiro.
Referências Anteriores e Cautela Atual
No primeiro mandato de Trump, que ocorreu de 2017 a 2021, ele fez referências diretas à China em todos os seus discursos sobre o Estado da União. Esses comentários geralmente enfatizavam a ameaça representada por Pequim para os EUA.
Gabriel Wildau, diretor administrativo da Teneo, comentou: “Trump não quer provocar uma briga com a China em um ano eleitoral”, referindo-se às eleições de meio de mandato que ocorrerão nos Estados Unidos em novembro.
“A estabilidade nas relações entre os EUA e a China é uma prioridade para o presidente, pelo menos neste ano e possivelmente durante o restante de seu mandato”, acrescentou Wildau.
Visita a Pequim e Expectativas
Para manter esse relacionamento, Trump planeja visitar Pequim de 31 de março a 2 de abril, marcando a primeira visita de um presidente dos EUA à China desde 2017. No entanto, o Ministério das Relações Exteriores da China ainda não confirmou as datas exatas da visita, como salientou George Chen, parceiro do The Asia Group. “Isso faz com que Trump pareça mais desesperado para visitar a China do que o quanto [o presidente chinês Xi Jinping] deseja recebê-lo”, observou Chen.
A falta de menções à China no discurso de Trump serve como outro exemplo de como ele permanece cauteloso em relação às relações entre os EUA e a China, ressaltou Chen.
Tarifas e Relações Comerciais
A China e os EUA aumentaram as tarifas sobre os produtos um do outro no início da primavera, superando 100%, antes de alcançarem uma trégua comercial em outubro, que reduziu as tarifas a menos de 50% no ano seguinte. Pequim também intensificou suas restrições sobre as exportações de terras raras em todo o mundo, dominando a cadeia de suprimentos global desses minerais críticos, usados em uma ampla variedade de tecnologias.
Wildau comentou que “o estado da União mostrou que Trump acredita que glorificar os triunfos militares dos EUA sobre estados frágeis como a Venezuela representa uma política eleitoral melhor do que brigar com a China por terras raras”.
A incerteza em torno das tarifas aumentou durante o fim de semana, após o Supremo Tribunal dos EUA ter derrubado tarifas que Trump havia imposto sobre um conjunto de países no ano anterior. Logo após, Trump rapidamente apontou para uma base alternativa para aumentar a taxa de tarifas global.
Duas mídias estatais chinesas, em postagens nas redes sociais no Weibo, ressaltaram a oposição dentro do Congresso ao discurso de Trump. O interesse local na China em relação ao pronunciamento do presidente americano foi, no geral, moderado.
Comparações com a Administração Biden
A limitação das menções sobre a China no discurso de Trump também reflete a imprevisibilidade de sua política em relação a Pequim, destacou Yue Su, economista-chefe da Economist Intelligence Unit (EIU). “Em contraste, o presidente democrata [Joe] Biden fez referências constantes à China em seus discursos, o que sublinha um grau de continuidade e previsibilidade em sua política em relação a Pequim”, observou Su, referindo-se ao antecessor de Trump.
A resposta do Partido Democrata ao discurso de Trump na terça-feira focou diretamente em Pequim. “Enquanto o presidente mencionava suas supostas vitórias, ele continua a ceder poder econômico e força tecnológica à Rússia, se curvando à China, se curvando a um ditador russo e fazendo planos para a guerra com o Irã”, disse a governadora da Virgínia, Abigail Spanberger, que fez a réplica.
Expectativas para um Acordo Significativo
Para um presidente dos EUA que já mencionou Xi pelo nome em discursos públicos, a ausência de referência à segunda maior economia do mundo em seu discurso sobre o Estado da União é um movimento estratégico. Se Trump conseguir firmar um acordo durante sua viagem a Pequim, “ele poderá facilmente moldá-lo como uma grande conquista para sua base”, afirmou Su da EIU. “E, se as negociações não correrem bem, uma abordagem retaliatória ou de linha dura pode ser apresentada de forma igualmente positiva no cenário doméstico.”
Expectativas de Comercialização e Discussões sobre Tarifas
Steven Okun, fundador e CEO da APAC Advisors, com sede em Cingapura, afirmou que este ano o discurso estava, compreensivelmente, mais focado em tópicos que impactam as eleições de meio de mandato, que não incluem a China. Contudo, ele ressaltou que, se Trump realmente quisesse abordar a acessibilidade dos consumidores americanos, a redução das tarifas sobre a China “resultaria em benefícios muito mais rápidos para os bolsos das pessoas”.
“Portanto, podemos ver um acordo sobre tarifas com a China no final de março ou no início de abril”, disse Okun na quarta-feira durante o programa “Access Middle East” da CNBC.
A expectativa é que muitos executivos de empresas dos EUA acompanhem Trump durante sua viagem à China nas próximas semanas. As reuniões com os homólogos chineses podem representar uma oportunidade para apoiar acordos, incluindo compras chinesas de produtos agrícolas americanos.
Ao ser questionado sobre a discussão limitada de Trump sobre a China, Marko Papic, estrategista-chefe da empresa de pesquisa de investimento global BCA Research, comentou simplesmente: “Um grande acordo está a caminho!”
— A CNBC, através de Sydney Goh, contribuiu para este relatório.
Fonte: www.cnbc.com