Um ano após o tarifaço, Brasil e EUA continuam em situação incerta.

Um ano após o tarifaço, Brasil e EUA continuam em situação incerta.

by Fernanda Lima
0 comentários

Tensão Comercial entre Brasil e Estados Unidos

O dia 9 de julho de 2025 marcou um momento crucial na relação comercial entre o Brasil e os Estados Unidos. Naquela data, há um ano, o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a aplicação de uma tarifa de 50% sobre todas as importações provenientes do Brasil, justificando essa medida como necessária para corrigir “injustiças graves” do regime atual.

Durante seu discurso, Trump fez referências ao ex-presidente Jair Bolsonaro e abordou o julgamento relacionado aos ataques de 8 de janeiro, mencionando uma “caça às bruxas” e “ataques insidiosos do Brasil contra eleições livres e os direitos de expressão dos cidadãos norte-americanos”.

O presidente dos EUA também dirigiu críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), alegando que a corte havia emitido “centenas de ordens de censura secretas e ilegais” dirigidas a plataformas de mídias sociais nos Estados Unidos.

No decreto assinado posteriormente, Trump procurou justificar sua ordem executiva como uma ação em resposta a uma “emergência nacional”, citando políticas e ações brasileiras que, segundo ele, prejudicavam empresas norte-americanas, afrontavam a liberdade de expressão dos cidadãos dos EUA e afetavam a política externa e a economia do país.

Ao ser implementada, a nova tarifa preservou 44,6% do total das exportações brasileiras para os Estados Unidos, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Alguns produtos, incluindo petróleo, suco de laranja, aviões e suas partes, além de celulose, foram mantidos com uma alíquota de 10% devido à sua importância estratégica.

A Promessa de Campanha de Trump

Durante sua campanha presidencial, Trump destacou em seus comícios o quanto apreciava a palavra “tarifas”. A promessa de aplicar tarifas fazia parte de uma estratégia mais ampla, visando fortalecer a economia americana em dois aspectos principais:

  1. Estimular a produção de manufacturados internamente;
  2. Diminuir o déficit na balança comercial dos Estados Unidos.

Trump afirmava que a indústria americana enfrentava um colapso, levando o país a depender excessivamente de importações vindas de diversas partes do mundo. A situação resultou, segundo ele, em um país que, antes exportador, passou a adquirir mais do que vender.

Em 2024, o déficit comercial dos EUA atingiu a cifra de US$ 918,4 bilhões, um aumento de US$ 133,5 bilhões, correspondendo a 17% em relação a 2023, conforme dados do Departamento de Análise Econômica (BEA) e do Departamento do Censo dos EUA. Já em 2025, o déficit foi ligeiramente menor, totalizando US$ 901,5 bilhões.

Após retornar à Casa Branca, Trump pediu a realização de uma série de estudos para analisar o que denominava desequilíbrio nas relações comerciais e injustiças entre os Estados Unidos e seus parceiros comerciais. Desde o início, o Brasil se tornou alvo da administração republicana, inicialmente devido a barreiras impostas pelo país sobre o comércio de etanol.

O Início da Crise Comercial

Em 2 de abril, data que Trump denominou “Dia da Libertação”, ambos os países passaram a sofrer os efeitos das chamadas “tarifas recíprocas”. Na ocasião, a alíquota estabelecida para o Brasil foi de 10%.

O Tarifaço e Suas Consequências

Com a divulgação da tarifa de 50%, as trocas comerciais entre os dois países diminuíram, e uma crescente tensão política começou a se desenvolver em torno desse impasse comercial, exacerbada pela ausência de canais efetivos de comunicação.

A introdução da tarifa de 50% em agosto também gerou uma politização do debate sobre o tarifaço. Ao criticar o Supremo Tribunal, Trump proporcionou combustível tanto para a oposição quanto para os apoiadores da situação.

Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, destacou que o tarifaço era resultado das ações do ministro Alexandre de Moraes, afirmando que essas tarifas foram discutidas em reuniões com autoridades do governo dos EUA.

Por sua vez, o governo Lula adotou um discurso sobre a defesa da soberania nacional, enfatizando a importância das instituições e do setor industrial do Brasil. A popularidade do presidente lidou com um fortalecimento após confrontar os Estados Unidos.

Entretanto, para contrabalançar o tarifaço, buscou-se uma “separação entre Igreja e Estado”, onde as negociações focavam em aspectos técnicos, na tentativa de evitar um conflito ideológico com a administração Trump.

Com o apoio do setor privado, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, conduziu o diálogo. O empresariado conseguiu maior acesso e interação com seus equivalentes norte-americanos, como observado pelo empresário Joesley Batista, do grupo J&F.

Entretanto, avançar nas conversas entre os governos por canais de alto nível revelou-se complicado. As interações entre os presidentes ainda estavam, até aquele momento, afastadas.

Durante esse período, o governo brasileiro anunciou uma série de medidas, como linhas de crédito e reduções de impostos, para apoiar os exportadores que eram impactos no mercado norte-americano.

Reunião e Inicialização do Diálogo

Em setembro, a participação de Lula na Assembleia Geral da ONU foi marcada pela ausência de uma sinalização de encontro com o presidente norte-americano. No entanto, nos corredores da ONU, os dois líderes se encontraram e a conversa começou de forma inesperada com um abraço.

Trump, em seu discurso, mencionou: “Nós não tivemos muito tempo para falar aqui, foram tipo, 20 segundos, mas conversamos e combinamos de nos encontrar na semana que vem, se for do seu interesse. Ele parecia um homem muito legal, na verdade, ele gostava de mim, eu gostava dele. E eu só faço negócios com pessoas de quem gosto”.

Ele acrescentou: “Tivemos ali uma química excelente e isso foi um bom sinal.”

Após esse encontro inicial, os dois líderes tiveram reuniões face a face e trocaram telefonemas, tratando desde questões comerciais até colaborações conjuntas para combater o crime organizado.

Redução das Tarifas

Em 14 de novembro, Trump decidiu revogar as tarifas recíprocas que haviam sido implementadas em 2 de abril sobre uma gama de produtos agrícolas importados pelos EUA. Essa decisão foi influenciada pelos efeitos do tarifaço nos preços nos supermercados americanos.

Em 20 de novembro, o presidente norte-americano assinou uma ordem executiva que aboliu a tarifa adicional de 40% aplicada a parte dos produtos agrícolas brasileiros, com retroatividade a 13 de novembro.

Conforme informações do Itamaraty, mais de 200 produtos brasileiros tiveram a taxa adicional suspensa, abrangendo itens como carne bovina, café, frutas e recursos naturais como petróleo.

Em fevereiro de 2026, uma decisão significativa abalou a estratégia comercial de Trump: a Suprema Corte dos Estados Unidos concluiu que o presidente tinha violado a lei federal ao impor unilateralmente tarifas abrangentes, resultando na revogação do tarifaço. Apesar disso, as exportações brasileiras para os Estados Unidos apresentaram crescimento desde então.

Novas Tarifas em 2026

Em maio de 2026, Lula e Trump se encontraram novamente em Washington. Além de discutir questões comerciais, abordaram a cooperação internacional no combate ao crime organizado e a exploração de minerais críticos. Durante a reunião, Trump descreveu Lula como um “presidente dinâmico” e ressaltou que o encontro foi muito produtivo.

Entretanto, apesar de diversos avanços, a situação complexa com os Estados Unidos permanece indefinida. Após a reunião, o Departamento de Estado dos EUA caracterizou as organizações Comando Vermelho e PCC (Primeiro Comando da Capital) como “Terroristas Globais Especialmente Designados”, contrariando propostas do governo brasileiro para combater o crime de forma integrada.

Em relação às terras raras, um documento enviado pelo Departamento de Estado em negociação de minerais críticos errou o nome do Brasil, referindo-se ao país como “país X” e “Equador”, o que foi encarado pelo governo brasileiro como uma demonstração de falta de empenho para estabelecer uma parceria de interesse mútuo.

Adicionalmente, o governo de Trump pretende reimplantar tarifas. No início de junho, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) sugeriu a imposição de novas tarifas de 25% sobre todas as importações do Brasil, no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, uma ferramenta que possibilita aos EUA investigar e retaliar práticas comerciais consideradas desleais.

O USTR alegou que as políticas do governo brasileiro sobre comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, processamento de patentes, pirataria, etanol e desmatamento ilegal criam insegurança jurídica e competição desleal para empresas americanas.

Na noite seguinte, propôs a implementação de tarifas adicionais sobre produtos do Brasil e de outras 59 economias que, segundo o governo dos EUA, não executaram medidas suficientes contra comércio de produtos originados de trabalho forçado.

Diante disso, o governo brasileiro se mobilizou para contestar as alegações e, em colaboração com o setor privado, desenvolveu uma resposta aos processos instaurados pelo USTR. Simultaneamente, lançou uma portaria ampliando o alcance do Plano Brasil Soberano, incluindo empresas que sofre

ram impactos a partir de 1% no faturamento bruto por causa do tarifaço ou por conta da guerra no Oriente Médio.

No entanto, a diplomacia enfrenta desafios com negociações estagnadas devido à falta de clareza nas demandas dos EUA em relação ao Brasil. Enquanto o processo avança, o governo procura manter um canal de diálogo aberto com representantes do USTR.

Paralelamente, o setor privado tem buscado se deslocar até Washington para dialogar diretamente com autoridades norte-americanas.

Entre os dias 6 e 7 de junho, o USTR promoveu audiências para ouvir argumentos sobre a investigação da Seção 301. O agronegócio brasileiro esteve presente no primeiro dia, levando um discurso mais técnico e com poucas críticas à abordagem brasileira, o que sinalizou um clima de menor tensão entre o setor privado.

Paulo Pupo, superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), que participou dos debates, reportou que as discussões apresentaram um “nível técnico mais elevado e menos perguntas capciosas”, tornando o diálogo com as autoridades americanas mais seguro.

Representantes e porta-vozes de entidades que participaram das audiências garantiram aos veículos de comunicação que a defesa do comércio exterior do Brasil abrangeu, além da contestação da investigação, uma ênfase na complementaridade entre os negócios brasileiros e americanos e na longa tradição que sustenta a relação entre exportadores do Brasil e importadores dos EUA.

Após as discussões com as autoridades norte-americanas sobre a investigação comercial contra o Brasil, interlocutores do setor privado expressaram otimismo quanto à possibilidade de expansão da lista de itens isentos de um novo tarifaço. Contudo, a expectativa é de que tarifas sejam aplicadas a alguns produtos brasileiros.

A decisão final do USTR está programada para ser divulgada no dia 15 de julho. Aguardamos.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

Você pode se interessar

Utilizamos cookies para melhorar sua experiência de navegação, personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Ao continuar navegando em nosso site, você concorda com o uso de cookies conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Você pode alterar suas preferências a qualquer momento nas configurações do seu navegador. Aceitar Leia Mais

Privacy & Cookies Policy