A Percepção de Riqueza no Brasil
A maneira como os brasileiros entendem a riqueza está mais relacionada a símbolos de consumo e à aparência de prosperidade do que ao dinheiro em si. Essa reflexão foi trazida pelo antropólogo Michel Alcoforado, autor do livro Coisa de Rico, em um painel realizado no dia 23 de outubro de 2026, durante a Expert XP 2026.
Relação do Brasileiro com o Dinheiro
Alcoforado abordou como a percepção de classe social no Brasil é predominantemente construída por elementos visíveis do estilo de vida. Ele afirma que "quando pensamos em percepção de classe no Brasil, ter dinheiro é só um quarto desse movimento. O resto são as coisas que dão a percepção de que as pessoas são ricas". Essa relação entre riqueza e consumo tem repercussões diretas na economia do país, além de influenciar a forma como as pessoas administram seus recursos financeiros.
Ele afirmou que "nossa percepção de riqueza está muito mais mobilizada às coisas, e isso impacta fortemente a economia brasileira, porque estamos sempre transformando o dinheiro em algo".
Comportamento em Relação à Riqueza
O antropólogo observa que há uma tendência cultural entre os brasileiros de viver acima de suas condições financeiras reais, na esperança de ascensão social.
Ele observa que o comportamento de se manter em um padrão de vida superior ao que realmente se possui é muito comum: "Estamos sempre gerenciando nosso estilo de vida um degrau acima, porque acreditamos que vivendo assim, vamos nos tornar".
Alcoforado argumenta que essa necessidade de exibir um padrão de vida específico influencia as decisões financeiras das pessoas e prejudica sua capacidade de acumular patrimônio ao longo do tempo.
Impacto nas Finanças da Sociedade
Essa dinâmica, segundo Alcoforado, afeta diretamente as finanças da sociedade brasileira. Ele enfatiza que, se as pessoas não demonstram o estilo de vida esperado, muitas vezes não conseguem realizar negócios: "Este é o principal problema que precisamos resolver".
Como resultado, o especialista aponta os baixos índices de poupança e investimento que são observados atualmente no Brasil.
Consumo e Gestão Patrimonial
Durante o painel, Alcoforado também discorreu sobre a importância da disciplina financeira e da implementação de mecanismos de controle de gastos dentro das famílias. Ele destaca que famílias que conseguem preservar seu patrimônio ao longo do tempo geralmente contam com profissionais que monitoram riscos e impõem limites ao consumo. Esses profissionais possuem um entendimento claro sobre quanto é possível gastar.
Ter alguém que possa "acender o alerta do risco" e questionar a necessidade de gastos é, segundo ele, essencial para a manutenção do patrimônio familiar. Alcoforado salienta que a durabilidade do patrimônio depende de uma visão de continuidade que abrange várias gerações.
Ele salientou que, em média, o dinheiro no Brasil tende a durar apenas cinco gerações. No entanto, essa realidade pode ser alterada quando a família reconhece a importância de transmitir ao próximo grupo geracional, no mínimo, a mesma quantia de patrimônio que recebeu.
O Tabu em Torno do Dinheiro
Outro tópico importante abordado pelo antropólogo é o desafio da educação financeira no Brasil. Alcoforado afirma que a conversa sobre dinheiro continua a ser um tema cercado de tabus, o que dificulta a disseminação do conhecimento sobre investimentos e planejamento patrimonial entre as pessoas.
Nesse contexto, ele acredita que a tecnologia desempenhará um papel fundamental na ampliação do acesso à informação, contribuindo para tornar essas discussões mais frequentes.
Ele conclui, afirmando que "a tecnologia será uma grande aliada; e não é que o consultor perderá seu espaço, mas certas questões serão abordadas por IAs, por exemplo, e assim podemos desmistificar o tabu da conversa sobre dinheiro".
Fonte: borainvestir.b3.com.br


