Mercado de Títulos: Semana Difícil
Foi uma semana desafiadora para o mercado de títulos. A tentativa do governo dos Estados Unidos de oferecer auxílio resultou em um alívio temporário.
Aumento das Taxas de Títulos
Uma elevação global nas taxas de títulos públicos de longo prazo resultou em rendimentos que atingiram máximas de vários anos nesta semana. Esse aumento gera custos mais elevados para captação tanto para governos quanto para empresas e consumidores.
A alta dos rendimentos pode ser atribuída, em grande parte, ao crescente temor dos investidores em relação à persistência da inflação nos EUA e ao aumento contínuo da dívida pública. Além disso, a concorrência proveniente de títulos corporativos voltados para a expansão da inteligência artificial tem reduzido a demanda pelos Treasuries.
Intervenção do Departamento do Tesouro
O rendimento do Treasury de 30 anos alcançou 5,34% na terça-feira (18), marcando seu maior nível desde 2007, antes da crise financeira global. Em resposta a essa situação, o Departamento do Tesouro tomou uma medida incomum.
Na quarta-feira (19), o departamento anunciou que planejava “pelo menos dobrar” a quantidade de títulos públicos antigos de longo prazo que recompra regularmente dos investidores. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, descreveu essa ação em uma entrevista à CNBC como um esforço para sinalizar ao mercado que “acreditamos que os rendimentos não refletem os fundamentos subjacentes”.
Bessent também mencionou que existem “muitas incompreensões” sobre o aumento recente do déficit, creditando a alta ao reembolso de tarifas após a decisão da Suprema Corte que declarou muitas tarifas do governo Trump como ilegais.
Reação do Mercado
O comunicado pegou os mercados de surpresa. Embora as recompras de títulos sejam uma prática padrão do Tesouro desde a administração Biden, o momento do anúncio foi notavelmente incomum, já que ocorreu apenas duas semanas após a divulgação do cronograma de recompra, sem quaisquer menções a planos de expansão do programa.
Após o anúncio, os rendimentos dos Treasuries caíram acentuadamente, e as ações se valorizaram. No entanto, os rendimentos voltaram a subir na manhã de quinta-feira, retornando a níveis semelhantes aos anteriores ao anúncio das recompras. O rendimento do Treasury de 30 anos estava em cerca de 5,2% na quinta-feira (20), enquanto o rendimento de 10 anos, que serve como referência para hipotecas e empréstimos para automóveis, estava próximo de 4,7%, ligeiramente acima do nível anterior à intervenção.
Apreensões dos Investidores
Analistas afirmam que os rendimentos continuam a subir gradualmente, mesmo após a intervenção, porque o Tesouro não está conseguindo resolver o problema central que pressiona os rendimentos para cima: o governo dos EUA está gastando substancialmente mais do que arrecada.
O déficit orçamentário federal encontra-se em torno de 6% do produto interno bruto, uma taxa historicamente elevada que os Estados Unidos raramente registram fora de períodos de guerra ou recessões profundas. Seguindo essa linha, nesta semana, a dívida nacional alcançou o preocupante montante de US$ 40 trilhões, tendo quadruplicado desde 2008.
Os investidores em títulos, de forma geral, buscam obter uma compensação maior, através de rendimentos crescentes, por assumirem o risco que implica um empréstimo ao governo dos EUA. Krishna Guha, da Evercore ISI, comentou que “se o governo conseguisse promover uma mudança material nos fundamentos por meio de um déficit menor, isso seria um divisor de águas”. Contudo, ele se mostrou extremamente cético sobre essa possibilidade.
Títulos Corporativos e Concorrência
A pressão sobre os rendimentos dos títulos do governo é ainda intensificada pela emissão de uma quantidade significativa de títulos corporativos. Empresas de tecnologia têm emitido dívidas para financiar a expansão da inteligência artificial, competindo pelos mesmos investidores.
Gigantes como Google e Meta estão lançando dezenas de milhões de dólares em títulos, disputando o interesse de um grupo de compradores que também busca rentabilidade em títulos do governo. Assim, muitos investidores têm redirecionado seus recursos para a dívida corporativa, o que, indiretamente, eleva os rendimentos dos títulos do governo.
Bessent anunciou à CNBC que ele e o presidente Donald Trump planejavam em breve “um foco maior na consolidação fiscal”, o que normalmente envolve uma combinação de cortes de orçamento e aumentos de impostos para reduzir o déficit. O Departamento do Tesouro não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre esse assunto.
Importância do Mercado de Títulos
Os títulos geralmente não recebem a atenção que as ações costumam ter, mas sua importância para as finanças pessoais é inegável. Sendo os Treasuries o maior segmento do mercado de títulos, instituições financeiras como bancos os utilizam como referência para definir as taxas de juros que cobram de seus clientes.
Financiamentos imobiliários e empréstimos para automóveis estão intimamente ligados ao rendimento do Treasury de 10 anos. Quando esses rendimentos aumentam, o custo para o governo, empresas e consumidores se torna mais elevado ao tomarem empréstimos.
Heather Long, economista-chefe da Navy Federal Credit Union, expressou que “é bastante preocupante para a população ver isso acontecer”. Ela também afirmou que muitos estão constantemente verificando as taxas de financiamentos habitacionais devido a essa situação.
A taxa média de hipoteca de 30 anos disparou para mais de 6% em 2022 e se manteve acima desse patamar por quatro anos, dificultando ainda mais a aquisição de imóveis para muitos. Além disso, Long destacou que “não apenas os potenciais compradores de imóveis ou automóveis estão sendo afetados; há um aumento no número de pessoas que têm recorrido a cartões de crédito e empréstimos pessoais para superar a crise inflacionária”.
Ela enfatizou que “as pessoas que realmente precisavam se apoiar em dívidas agora estão tendo ainda mais dificuldades para fazer isso”, e acrescentou que os custos de crédito mais elevados provavelmente não desaparecerão sem significativas mudanças nos gastos federais ou uma recessão econômica severa.
A atual situação dos títulos ressalta a influência do mercado sobre a economia. Os mercados de títulos sempre exerceram um papel relevante nas taxas, mas quando os investidores alertam que os níveis de dívida e déficit estão excessivos, as opções disponíveis para os formuladores de políticas são limitadas.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br
