Como a guerra no Oriente Médio força investidores a reavaliar suas estratégias

Como a guerra no Oriente Médio força investidores a reavaliar suas estratégias

by Rafael Martins
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O ciclo de cortes na taxa de juros começou, mas vem ocorrendo a um ritmo mais lento do que se esperava no início do ano. Investidores que aumentaram suas apostas em ativos pré-fixados, na expectativa de uma queda na taxa de juros, foram surpreendidos pelo surgimento de um conflito no Oriente Médio, o que alterou as perspectivas sobre a velocidade e a profundidade dos cortes na Selic.

Diante dessa alteração do cenário, especialistas destacam a importância de estratégias que ajudem os investidores a recalcular a rota em meio às incertezas de curto prazo e à volatilidade esperada para este ano eleitoral.

Conflito no Oriente Médio muda leitura de cenário

Na reunião do mês de março, o Comitê de Política Monetária (Copom) realizou o primeiro corte na taxa Selic desde maio de 2024, reduzindo a taxa de 15% para 14,75% ao ano, em resposta ao aumento das incertezas decorrentes do início do conflito no Oriente Médio.

A cotação do petróleo subiu rapidamente, passando de US$ 72 para uma média de US$ 103 por barril em questão de semanas. Essa alta trouxe riscos adicionais para a inflação relacionada a combustíveis e ao frete, levando a uma mudança significativa nas análises de investimento.

Perspectivas de investimentos para tempos de incertezas

Para navegar durante este período repleto de incertezas, é fundamental avaliar os riscos e os prazos de forma cuidadosa. Em relação aos títulos prefixados, existe um consenso entre os gestores sobre a necessidade de cautela.

Alexandre Fernandes, responsável pela área de crédito na Paramis, explica que a mudança no cenário geopolítico alterou a simetria entre risco e retorno desses ativos, que ganharam destaque devido à expectativa anterior de redução da taxa de juros.

Fernando Benavenuto, planejador financeiro e sócio da Anvex Capital, adverte que um dos principais erros que os investidores podem cometer neste momento é a concentração excessiva em títulos prefixados de longo prazo. Ele enfatiza que a montagem de uma carteira não pode ser feita sob a suposição de que o processo de cortes na taxa de juros será linear e imune a choques externos. O prêmio oferecido por esses papéis, segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, não compensa o risco de assimetria negativa que poderia ocorrer caso o Banco Central decida interromper ou desacelerar os cortes na Selic.

A recomendação entre os especialistas, portanto, é buscar diversificação e manter a cautela em relação à volatilidade. Ricardo Trevisan destaca que o maior erro do investidor é a falta de equilíbrio, ressaltando que ter uma parte da carteira em ativos pós-fixados (CDI) é uma escolha prudente que pode proteger os investimentos caso os cortes não ocorram no ritmo esperado.

Dentro da renda fixa, há uma preferência por títulos atrelados à inflação (IPCA+). Trevisan menciona que prefere a parte intermediária da curva, especificamente papéis com vencimento entre dois e quatro anos, pois os títulos de longo prazo tendem a apresentar uma volatilidade excessiva, impulsionada pelo cenário externo e pelos impactos relacionados aos combustíveis. Benavenuto também compartilha essa visão, mencionando que a calibragem tem sido gradual para mitigar tanto o risco de reinvestimento em papéis de curto prazo quanto os sobressaltos de títulos com vencimento mais longínquo.

Em relação ao crédito privado, que inclui debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), a qualidade do balanço patrimonial do emissor é fundamental. Fernandes destaca que, após um período de compressão nos prêmios do setor, as taxas começaram a se recuperar, levando a gestora a encurtar a duração dos papéis para diminuir a volatilidade. Trevisan e Benavenuto concordam que as oportunidades reais estão em emissores de alta qualidade com fluxo de caixa previsível, preferindo debêntures no setor de infraestrutura, especialmente em energia elétrica e saneamento, assim como CRAs de grandes tradings agrícolas, evitando empresas altamente alavancadas.

Seletividade na renda variável

No mercado de renda variável, a seletividade é um fator crucial na hora de alocar recursos. Luciano França, chefe da área de ações da Paramis, explica que sua carteira busca aproveitar assimetrias em empresas com valuation descontado, geração de caixa sólida e gatilhos objetivos de reprecificação.

França destaca três principais frentes de investimento: incorporação residencial de alta qualidade, empresas de utilities e saneamento, e o setor de óleo e gás.

No caso da incorporação residencial, a tese se baseia em empresas que demonstram boa atuação, disciplina em capital e capacidade de manter margens mesmo em um ambiente seletivo. “O gatilho para alta no setor é a combinação da queda nos juros, uma melhor acessibilidade ao crédito imobiliário e a continuidade de vendas robustas, o que tende a desbloquear múltiplos que ainda estão subavaliados”, afirma.

Em relação às utilities e ao saneamento, a tese gira em torno de uma geração de caixa mais previsível, proteção inflacionária e potencial de reprecificação com a queda na taxa de desconto. “O gatilho de alta é duplo: por um lado, juros reais menores; por outro, a entrega operacional, revisões tarifárias e eficiência, que reforçam a percepção de qualidade desses ativos”, destaca.

Trevisan também identifica oportunidades no setor de energia elétrica, em grandes bancos privados e em construtoras direcionadas a média e alta renda, mas adverte que está reduzindo ativamente a exposição ao varejo discricionário e a empresas alavancadas, considerando que a diminuição dos custos da dívida poderá demorar mais do que o esperado, além do aumento nos preços dos combustíveis que pressionam o orçamento familiar.

Benavenuto reafirma que as alocações que tendem a ser mais consistentes neste momento volátil são aquelas direcionadas a bancos de alta qualidade, empresas de infraestrutura e exportadoras vinculadas a commodities.

“No caso dos bancos, a tese se apoia na alta rentabilidade, disciplina em crédito e capacidade de distribuir resultados, mesmo em um ambiente macroeconômico mais instável. No setor de infraestrutura, empresas com receitas reguladas e indexadas à inflação garantem previsibilidade e proteção real de caixa, além de potencial de reprecificação com a queda dos juros. Por fim, no segmento de commodities, a tese está atrelada à dinâmica global da oferta e demanda, especialmente dado o contexto de tensões geopolíticas que podem impactar as cadeias produtivas e manter os preços internacionais. O elemento comum a essas teses é a combinação de normalização monetária, resiliência operacional e reavaliação de múltiplos em um cenário com maior visibilidade econômica”, explica.

Para Fernandes, a abordagem deve considerar que é possível haver oportunidades mesmo em setores ou classes de ativos que são normalmente evitados durante períodos de estresse. “No high grade, onde os ativos são mais líquidos, estamos focados em evitar problemas ao invés de acelerar a alocação. Em high yield, onde os ativos tendem a ser menos líquidos, buscamos boas garantias estruturais. Também tentamos nos antecipar na gestão proativa de potenciais desafios, colaborando com as empresas às quais fornecemos capital”, conclui.

Pontos de atenção: combustíveis, eleição, e juros nos EUA

Em relação ao futuro, os investidores precisam se atentar a variáveis críticas que podem exigir adaptações em suas estratégias. Além das tensões no Oriente Médio e do preço do petróleo, que impacta a economia, o cenário fiscal interno em um ano pré-eleitoral e as decisões sobre juros do Federal Reserve nos Estados Unidos também são fatores a serem monitorados por gestores.

Um cenário fiscal mais desafiador pode elevar o risco de inflação caso haja um aumento nas perspectivas de gastos governamentais. Medidas destinadas a incentivar a economia, por exemplo, podem pressionar os preços devido ao incremento da demanda. Além disso, as decisões sobre juros nos EUA podem influenciar significativamente a atratividade do investimento estrangeiro no Brasil, com o fluxo de dólares sendo outra variável que impacta os preços.

Fôlego para o investidor

Apesar das incertezas, Alexandre Fernandes recomenda aos investidores que evitem mudanças constantes de posição em resposta aos acontecimentos. “Uma carteira montada com ativos de qualidade não deve necessitar de alterações estruturais drásticas.” Ele sugere que podem ser necessários ajustes nas posições em prefixados e atrelados à inflação em horizonte médio, além de alguma diversificação internacional.

Para lidar com a volatilidade, Benavenuto recomenda filtrar as informações do noticiário, focar nas tendências dos indicadores econômicos e contar com assessoria profissional, pois a disciplina e a consistência são mais determinantes para o sucesso do que as reações a movimentos de curto prazo.

Fonte: borainvestir.b3.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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