Como os novos hábitos dos chineses podem salvar a Floresta Amazônica

Como os novos hábitos dos chineses podem salvar a Floresta Amazônica

by Fernanda Lima
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Visita à Amazônia e o Compromisso Sustentável

Em abril, Xing Yanling compartilhou em sua conta no WeChat suas impressões sobre a Amazônia brasileira. Para ela, a experiência foi inesquecível, caracterizada pela presença de “dezenas de milhares de tons de verde”.

Xing não é uma turista comum. Ela lidera a Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, que representa os importadores responsáveis por cerca de 40% das compras de carne bovina da China originárias do Brasil.

Com a sua liderança, os membros de sua associação firmaram um compromisso de adquirir 50 mil toneladas de carne bovina brasileira que sejam certificadas e livres de desmatamento até o fim do ano. Este compromisso pode ser um indicativo precoce de que a China, uma das principais potências do comércio global de commodities, está disposta a pagar mais por cadeias de suprimentos que adotem práticas sustentáveis.

Esse volume corresponde a 4,5% do que os exportadores brasileiros de carne bovina esperam vender para a China no decorrer deste ano.

O compromisso de Tianjin desafia uma crença antiga entre os agricultores brasileiros, que sustentavam que a China, maior importadora mundial de carne bovina e soja, priorizava apenas o preço em suas transações comerciais.

Esse movimento ocorre num contexto em que o governo chinês expressa a intenção de abordar questões relacionadas ao impacto ambiental do comércio, ao mesmo tempo que busca proteger sua indústria nacional.

Em 2019, a China alterou sua legislação florestal para proibir o comércio de madeira ilegal. Em 2023, firmou um compromisso conjunto com o Brasil para eliminar o desmatamento ilegal associado ao comércio.

Desde o ano passado, a COFCO, uma empresa estatal chinesa de comércio exterior, comprometeu-se a erradicar o desmatamento de sua cadeia de suprimentos.

A Cadeia de Abastecimento de Carne Bovino e Desmatamento

A cadeia de abastecimento de carne bovina está propensa a ações efetivas, visto que sua importância na dieta chinesa não é comparável a outras commodities, como a soja. Essa afirmação foi feita por André Vasconcelos, chefe de engajamento global da Trase, plataforma que monitora o impacto ambiental de diversas cadeias de abastecimento.

“Eles têm ciência de que, ao menos em termos de informações, a carne, especialmente a brasileira, está intimamente associada ao desmatamento em comparação com outras commodities agrícolas importadas pela China”, afirmou Vasconcelos.

A floresta amazônica, considerada a maior e mais biodiversa do planeta, perde anualmente centenas de milhares de hectares de árvores. De acordo com o MapBiomas, uma organização brasileira sem fins lucrativos que monitora o uso do solo, 90% dessas áreas desmatadas são convertidas em pastagens para a criação de gado.

Um número crescente de consumidores chineses está se tornando consciente desse problema e adotando posturas mais exigentes à medida que sua renda aumenta, como observou Xing. Ela destaca que “não se trata apenas de um preço baixo”, mas afirma que “a carne bovina que é sustentável, segura e rastreável terá um mercado mais forte no futuro”.

Entretanto, para muitos consumidores chineses, a escolha de produtos com base em critérios ambientais ainda é uma prática inviável, especialmente em um cenário de preços elevados nos supermercados. Contudo, a rastreabilidade oferecida pelo projeto pode ajudar a mitigar as preocupações relacionadas à segurança alimentar.

A carne será comercializada com o selo “Beef on Track”, um selo desenvolvido pela ONG brasileira Imaflora, que estabelece quatro níveis de conformidade considerando a rastreabilidade da carne na cadeia de suprimentos e a legalidade do desmatamento nas fazendas.

Os importadores de Tianjin demonstram disposição para pagar até 10% a mais pela carne bovina de frigoríficos que comprovem que suas fazendas não têm vínculos com desmatamentos, sejam eles legais ou ilegais, além de não utilizarem trabalho escravo.

Se essa transformação ganhar força, pode haver um impacto expressivo no setor.

Segundo dados do governo e da Abiec, entidade exportadora de carne bovina que inclui empresas como JBS e MBRF, a China é responsável por mais de 10% das compras de carne bovina do Brasil.

No entanto, qualquer impacto positivo pode ser limitado pelo frágil sistema de rastreabilidade do Brasil. Atualmente, esse sistema depende de documentos de transporte de gado, que especialistas alertam serem suscetíveis a fraudes, permitindo que práticas irregulares na cadeia de suprimentos, conhecidas como “lavagem de gado”, ocorram sem dificuldade.

Melhorias nesse sistema de rastreabilidade podem demandar anos para serem implementadas.

Desafios e Oportunidades na Sustentabilidade

Durante a visita de Xing e sua delegação à fazenda Carioca, localizada em Castanhal, no norte da floresta amazônica, o proprietário Altair Burlamaqui não esperava algo além de uma troca de informações produtiva. Após mostrar seu gado e a vasta reserva de floresta em sua propriedade, a delegação expressou tanto entusiasmo que indagou se havia interesse de Burlamaqui em exportar sua carne para a China, como um produto que contribuiria para a preservação da Amazônia. A proposta foi recebida com emoção e também um certo desconforto.

“O que captei dessa conversa é que eles agora estão buscando agregar valor ao produto commodity para uma parcela da população disposta a pagar por isso. Contudo, essa parcela pode ser maior do que a população brasileira”, comentou o fazendeiro.

No cenário mais amplo, o projeto de sustentabilidade promovido por Tianjin recebeu uma recepção mais comedida por parte do setor. Informações obtidas pela Reuters revelaram que a Abiec manifestou descontentamento com a iniciativa liderada por Xing, conforme relato de duas fontes que recentemente conversaram com a direção da entidade.

Uma das fontes destacou que há uma preocupação de que a demanda por carne bovina sustentável possa configurar-se como um obstáculo em um mercado que já apresenta restrições.

Este ano, a China implementou cotas para a importação de carne bovina, visando proteger sua indústria interna. Nesse contexto, estima-se que o Brasil atinja suas cotas de 1,1 milhão de toneladas até o final do próximo mês, ocasião em que Tianjin planeja importar seu primeiro contêiner de carne bovina com a certificação de sustentabilidade.

Em um comunicado, a Abiec declarou que “acompanha iniciativas voltadas à certificação, entendendo que novos selos devem dialogar com os sistemas já existentes, evitando sobreposições ou exigências que exijam infraestrutura pública para sua implementação, o que poderia resultar em entraves à produção”.

A Abiec, no entanto, não respondeu aos questionamentos encaminhados pela Reuters.

As cotas imposta pode atrasar os planos de Tianjin, uma vez que qualquer importação de carne bovina excedente à cota estará sujeita a um imposto chinês que pode atingir 55%.

Pequim impôs essas cotas em um ano em que a produção global de carne bovina deverá diminuir, à medida que os criadores nos Estados Unidos e no Brasil estão repondo seus rebanhos, resultando em um aumento de preços em diversos países, incluindo a China.

Os Dilemas da Rastreabilidade

Os consumidores chineses estão habituados a adquirir produtos que são rastreáveis. Durante a visita, a equipe de Xing demonstrou a representantes brasileiros como integram códigos QR aos ovos, possibilitando aos consumidores rastrear sua origem até a fazenda. Esse nível de rastreabilidade facilita o trabalho dos órgãos reguladores na identificação da fonte de surtos de doenças, além de permitir que as empresas rompam relações com fornecedores envolvidos em práticas ambientais nocivas.

De acordo com Xing, “as pessoas estão dispostas a pagar o dobro” por esses produtos que têm essa rastreabilidade garantida.

A certificação “Beef on Track” deverá estar disponível para adesão de frigoríficos, supermercados e importadores até o final deste ano.

Seu nível mais básico é comparável ao padrão utilizado pelo Ministério Público Federal do Brasil para monitorar se as fazendas que fornecem diretamente à indústria da carne bovina cumprem com as normativas ambientais e trabalhistas.

Este programa já aprovou fornecedores que produzem 2,7 milhões de toneladas de carne bovina anualmente, o que representa apenas um quinto da produção nacional, mas quase o dobro das importações realizadas pela China no ano anterior. A carne bovina que Tianjin adquirirá este ano será parte desta produção.

Nenhuma empresa frigorífica brasileira anunciou planos para implementar a certificação.

A Imaflora, responsável pela criação do selo de certificação, argumenta que a iniciativa gerará oportunidades em vez de servir como um obstáculo para os produtores, situação que, segundo a organização, ocorreu nos setores de madeira e café.

“O setor ainda está avaliando como esse selo pode reconhecer e valorizar a produção brasileira, especialmente em um contexto de tensões geopolíticas”, observou Marina Guyot, gerente de políticas públicas da Imaflora.

Ela acrescentou que a certificação tem como objetivo reconhecer o que as empresas já estão fazendo para atender seus compromissos de sustentabilidade e rastreabilidade.

“Esse selo tem a capacidade de valorizar esse esforço”, finalizou.

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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