Foco no Novo Presidente do Federal Reserve e Impactos no Mercado de Títulos
À medida que os investidores se concentram na provável confirmação de Kevin Warsh como novo presidente do Federal Reserve, muitos podem estar desconsiderando o mercado que pode apresentar uma reação mais volátil: o de títulos. Sempre que ocorre uma transição no Federal Reserve, os rendimentos dos títulos do governo, o risco de duração e os spreads de crédito costumam se mover rapidamente, à medida que os mercados começam a reavaliar a política monetária.
Mudanças na Diretoria do Fed
"Nos próximos semanas, o que é realmente crucial é essa troca de liderança no cargo de presidente do Fed", afirmou Paisley Nardini, diretora administrativa da Simplify Asset Management e chefe de soluções multiactivas, durante a parte em áudio do programa "ETF Edge" da CNBC, na última segunda-feira.
Nardini explicou que, mesmo quando não há uma mudança imediata na política, os mercados podem começar a incorporar rapidamente expectativas futuras. Um novo presidente do Fed pode alterar o estilo de comunicação e modificar o ritmo de futuros aumentos ou cortes nas taxas de juros. Segundo ela, isso pode gerar ondas de impacto no mercado de títulos antes que as ações reajam completamente.
"Os mercados provavelmente serão cautelosos quanto ao que isso pode significar. Sempre que ocorre uma mudança de liderança, os mercados vão experimentar alguma volatilidade, e teremos que começar a precificar o que isso significa", comentou a especialista.
Decisões Recentes do Federal Reserve
Nesta semana, houve muitas notícias sobre o Federal Reserve para absorver. O Fed manteve as taxas de juros inalteradas em sua reunião de quarta-feira, com a taxa de fundos federais permanecendo na faixa de 3,50% a 3,75%. No entanto, a guerra e o aumento nos preços do petróleo desestabilizaram as suposições de política do banco central e dos investidores em títulos, que agora apostam contra um novo corte de juros em 2026. O presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que a pressão adicional sobre a economia devido ao aumento dos preços do petróleo provavelmente persiste, mesmo que ainda não tenha comprometido a perspectiva de inflação no longo prazo.
Entretanto, existe uma discordância maior do que nunca dentro do Fed, com uma mudança na composição do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), à medida que mais membros afirmam que não deve haver nenhuma indicação do banco sobre a contínua predisposição em cortar juros. Powell também declarou que não tem intenção de deixar seu cargo como governador do Fed, mesmo quando seu mandato como presidente chegar ao fim, complicando ainda mais um ambiente político já tenso no Fed.
Sensibilidade do Mercado de Títulos
Esse cenário pode tornar o mercado de títulos mais sensível, e a inflação permanece acima da meta, com o índice de gastos de consumo pessoal (PCE) girando em torno de 3,5% ao ano. O PCE núcleo subiu para 3,2%.
"Se lembrarmos do papel do Fed, temos um mandato dual, que é orientado por dados. Portanto, temos o emprego de um lado do espectro e a inflação do outro", comentou Nardini, referindo-se ao objetivo de máximo emprego para a economia e de 2% para a inflação. "Em um portfólio, muitas vezes esquecemos dos títulos até que a situação se torne predominante e seja tarde demais para reagir ou ajustar o portfólio adequadamente", concluiu.
Desempenho dos Títulos Durante a Gestão de Powell
Há razões para acreditar que mais investidores possam ter decidido ignorar os títulos durante o mandato de Powell no Fed, já que estes desempenho foi insatisfatório. O Índice Bloomberg US Aggregate Bond, que visa rastrear toda a dívida de grau de investimento dos EUA, teve um retorno de pouco menos de 2% ao ano durante a gestão de Powell, bem abaixo da média de 6,5% desde os anos 1970, segundo dados da Bespoke. O período de taxas de juros mais altas, devido à inflação, combinado com múltiplos choques desde a Covid até a invasão da Ucrânia pela Rússia e a atual guerra entre EUA e Irã, foram fatores que contribuíram para essa performance.
Riscos para os Investidores em Títulos
Nardini observa que, com o Fed atualmente em modo de espera, o primeiro grande risco para os investidores em títulos é a duração. Se os investidores estiverem excessivamente expostos a títulos de longo prazo e esperando cortes, podem estar vulneráveis caso esses cortes cheguem tarde demais ou não ocorram. O rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos já apresentou oscilações acentuadas neste ano, com seu rendimento atual acima de 4%.
A Importância da Força de Crédito
O segundo risco é a força do crédito. Nardini explica que os spreads corporativos permanecem relativamente apertados, o que significa que os investidores não estão sendo compensados significativamente por assumirem mais riscos em títulos, além da taxa livre de risco dos títulos do Tesouro. Essa dinâmica pode se tornar mais relevante no final do ciclo, se surgirem fraquezas econômicas e de crédito. "Você realmente precisa dissecar quanto do rendimento dentro do crédito vem dos títulos do Tesouro em comparação com o componente spread", ressaltou.
Os níveis historicamente apertados dos spreads de crédito, que recentemente testaram mínimas em várias décadas, representam a crença dos investidores de que o risco de inadimplência é baixo e que a perspectiva econômica é forte. Contudo, mesmo com um Fed em modo de espera, os mercados vêm aumentando as apostas este ano de que a curva de rendimento se tornará mais acentuada, já que as taxas de curto prazo permanecem mais sensíveis a um eventual corte do Fed, enquanto as taxas de longo prazo enfrentam perspectivas de inflação persistente e níveis mais elevados de dívida pública.
Perspectivas do Mercado de Crédito
A situação nos mercados de crédito está atraindo a atenção do CEO do maior banco do país, Jamie Dimon, que alertou esta semana, embora não tenha apontado especificamente para qualquer sinal atual do mercado de crédito, que "não tivemos uma recessão de crédito há tanto tempo, então, quando tivermos uma, pode ser pior do que as pessoas pensam. Pode ser terrível."
Nardini concluiu afirmando que, durante períodos de relativa calma, é importante lembrar que essa calma pode ser enganosa. "Sempre que os mercados se tornam complacentes, seja em ações ou em títulos, geralmente é nesse momento que a volatilidade surge", finalizou.
Fonte: www.cnbc.com


