A volta às aulas e seu impacto no orçamento das famílias
“A volta às aulas representa, historicamente, um dos momentos de maior pressão sobre o orçamento das famílias brasileiras”, afirma Harion Camargo, planejador financeiro CFP atuante na Planejar. Ele explica que essa pressão resulta de características estruturais dos gastos, que transcendem a inflação geral.
De acordo com um estudo da Rico, entre 2021 e 2025, a cesta de volta às aulas teve um aumento de 39,34%, enquanto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 33,13%. Em termos práticos, um conjunto de despesas que custava R$ 1.000,00 há cinco anos agora sai por aproximadamente R$ 1.393,00. Maria Giulia Figueiredo, analista de research da Rico, enfatiza que o impacto é sentido logo no começo do ano. “É hora de montar a lista, ajustar o orçamento e enfrentar aquele dilema anual: tudo parece estar mais caro”, afirma.
Estrutura de custos na educação
A discrepância de preços se dá porque os itens relacionados à educação não apresentam aumento uniforme. Muitos deles dependem de matérias-primas que são sensíveis às oscilações do mercado, como papel, plástico e tecidos, além de insumos que podem ser importados. As mensalidades escolares, por sua vez, tendem a ter reajustes concentrados no início do ano letivo, refletindo custos que são próprios do setor, como salários, tecnologia e infraestrutura.
Material, livros e uniforme: o impacto começa na mochila
Entre os gastos mais imediatos que as famílias enfrentam estão os relacionados à papelaria, livros e uniformes, que costumam ser adquiridos de maneira concentrada no mês de janeiro. Em 2025, a inflação da papelaria foi moderada, com aumento de 2,39%, inferior ao IPCA. Apesar disso, no acumulado de cinco anos, a inflação dessa categoria chega a quase 40%.
A disparidade nos preços de livros é ainda mais marcante. Enquanto os livros didáticos tiveram um aumento de 4,47% em 2025, os não didáticos avançaram 6,32% no mesmo ano e quase 52% em cinco anos. Portanto, R$ 100 gastos com livros não didáticos em 2021 equivalem a aproximadamente R$ 152 atualmente.
O uniforme escolar segue a lógica semelhante: embora seja considerado um gasto pontual,j acumula uma alta próxima de 40% ao longo dos cinco anos. Como a aquisição costuma ocorrer em uma única compra, o impacto no orçamento familiar é imediato.
Entretanto, se o material escolar causa dor no curto prazo, as mensalidades representam a principal pressão contínua sobre o orçamento. Em 2025, os reajustes das mensalidades superaram a inflação na maioria dos níveis de ensino, sendo o ensino fundamental o mais afetado, acumulando um aumento de 49,35% desde 2021. Assim, uma mensalidade de R$ 1.000 há cinco anos estaria hoje próxima de R$ 1.493, levando em conta os percentuais médios apresentados no estudo.
Esse tipo de despesa, segundo especialistas, costuma ser subestimada no planejamento familiar. “Um dos erros mais comuns é considerar essas despesas como eventos isolados, quando, na realidade, elas são previsíveis e recorrentes”, adverte Harion Camargo.
Como atravessar a volta às aulas sem endividamento
Diante desse cenário, o planejamento financeiro deixa de ser apenas uma recomendação e passa a ser uma necessidade prática. Thaisa Durso, educadora financeira da Rico, destaca que o primeiro passo é entender exatamente para onde está indo o dinheiro.
“Antes de criar qualquer plano, é fundamental ter clareza sobre a situação financeira real”, afirma. Este entendimento abrange o mapeamento das receitas, das despesas fixas, dos gastos variáveis e dos compromissos previsíveis no início do ano.
Um aspecto essencial é que o planejamento deve ir além do mês de janeiro. “É preciso que o planejamento seja contínuo. Planilhas, aplicativos ou registros simples ajudam a monitorar entradas e saídas e evitam decisões impulsivas”, diz Durso.
Pagar à vista ou parcelar?
Para Durso, a questão não reside necessariamente em parcelar as despesas, mas sim em fazê-lo de maneira criteriosa. “A decisão de pagar à vista ou parcelar deve levar em conta o planejamento financeiro, a preservação de liquidez e o custo de oportunidade”, explica.
Ela menciona que, quando existe um desconto significativo e sobra de caixa, o pagamento à vista tende a ser a opção mais eficiente. Por outro lado, o parcelamento pode servir como uma ferramenta de organização, desde que não envolva juros elevados e que se ajuste confortavelmente ao orçamento.
O perigo se torna evidente quando o crédito é utilizado como uma solução automática.
“Os problemas surgem quando o parcelamento é realizado sem planejamento, especialmente em modalidades de crédito que possuem juros altos, o que pode levar a um ciclo de endividamento”, alerta Harion Camargo.
Em muitos casos, as famílias comprometem a renda de vários meses para cobrir despesas que já estavam mais caras na origem. Uma maneira de reduzir esse risco, segundo os especialistas, é diluir os custos ao longo do ano anterior.
Reservar mensalmente valores específicos para despesas previsíveis, como impostos e volta às aulas, em aplicações de alta liquidez ajuda a transformar um pico de gastos em um processo mais controlável. “Um planejamento financeiro mais eficaz distribui essas despesas ao longo dos meses, reduzindo a necessidade de endividamento e conferindo maior previsibilidade ao orçamento doméstico”, resume Camargo.
Ensinando os pequenos
Se a volta às aulas pressiona o orçamento no curto prazo, também pode ser um momento oportuno para desenvolver uma relação mais saudável das crianças e adolescentes com o dinheiro. Dados do Inter indicam que o interesse por educação financeira na infância tem crescido de forma consistente: as contas Kids e jovens do banco apresentam um aumento médio de 31,8% ao ano, totalizando mais de 3,2 milhões de clientes.
Entre crianças e adolescentes, os produtos financeiros mais utilizados incluem poupança, Certificado de Depósito Bancário (CDB) e Letra de Crédito Imobiliário (LCI). Isso indica que muitas famílias buscam aproveitar esse momento para introduzir conceitos como poupança, planejamento e investimento desde a infância. Na prática, essa abordagem transforma gastos inevitáveis, como materiais escolares e uniformes, em oportunidades de aprendizado sobre escolhas, prioridades e disciplina financeira.
Essa lógica se alinha a uma tendência mais ampla observada no mercado global. Um estudo intitulado "Charting Disruption" de 2026, da Global X em parceria com a Bloomberg Media Studios, revela que investidores institucionais estão se concentrando menos em previsões de curto prazo e mais em estratégias estruturais, com foco no longo prazo e visibilidade de demanda.
O levantamento aponta uma migração de capital para setores como infraestrutura, energia e tecnologia estratégica, que exigem planejamento, constância e uma visão futura—os mesmos princípios que devem ser ensinados através da educação financeira desde a infância.
Para demonstrar o impacto do hábito de poupar, o Inter realizou simulações simples: aplicações mensais de R$ 25 em um CDB podem resultar em cerca de R$ 19 mil ao longo de 18 anos; com R$ 50, o montante eleva-se para aproximadamente R$ 38 mil; e, com R$ 100 por mês, o valor pode chegar a R$ 76 mil. Esses recursos, no futuro, podem ser utilizados para financiar estudos, intercâmbios, cursos ou os primeiros projetos de vida dos jovens.
“Quanto mais cedo as crianças e adolescentes iniciam sua familiarização com o universo financeiro, mais fácil se torna a criação de hábitos de poupança, planejamento, investimento e gestão do próprio dinheiro”, afirma Priscila Salles, diretora-executiva de Clientes do Inter.
Ela acrescenta que envolver os filhos no acompanhamento da conta, na definição de objetivos e no uso consciente do dinheiro torna a educação financeira mais concreta e presente no cotidiano.
O aprendizado precoce também prepara os jovens para um ambiente econômico que pode ser mais complexo. O estudo da Global X destaca que, em um contexto de juros altos, inflação persistente e maior volatilidade política, a tomada de decisões financeiras bem estruturadas e a diversificação tornam-se ainda mais cruciais ao longo da vida.
Ao participarem das decisões, desde comparar preços do material escolar até compreender o porquê de poupar hoje significar mais opções no futuro, crianças e adolescentes começam a reconhecer que o dinheiro é um recurso limitado e estratégico. Esse aprendizado prático contribui para a formação de consumidores mais conscientes atualmente e de investidores mais preparados ao longo de suas vidas.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br


