Evolução do Mercado de Securitização no Brasil
Uma troca de comando está remodelando o mercado brasileiro de securitização. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e as debêntures de securitização apresentaram um desempenho robusto no primeiro semestre, respondendo por quase três quartos do volume total captado pelos quatro principais instrumentos da área. Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), que até então eram os protagonistas, perderam espaço.
Dados do Primeiro Semestre
Os quatro produtos registrados movimentaram R$ 102,9 bilhões durante o primeiro semestre, o que representa um crescimento de 8,5% em relação ao mesmo período de 2025. Entretanto, esse crescimento foi impulsionado apenas por duas frentes: os FIDCs captaram R$ 53,1 bilhões, com uma alta de 29,4%, enquanto as debêntures de securitização aumentaram 46,1%, totalizando R$ 22,4 bilhões. Em contrapartida, as emissões de CRIs apresentaram uma redução de 15,8%, caindo para R$ 20,3 bilhões, e as de CRAs despencaram 50,4%, alcançando R$ 7,1 bilhões, conforme informações da Anbima.
Participação de Mercado
Como resultado, os FIDCs e as debêntures de securitização passaram a representar 73,4% deste mercado. Dois anos atrás, a participação conjunta desses produtos era de 46,9%. Flavia Palacios, diretora da Anbima, destaca que “esse crescimento também indica uma diversificação da arquitetura de crédito do país. Em vez de depender exclusivamente de uma única fonte de recursos, as companhias passam a combinar crédito bancário, emissões de dívida e estruturas baseadas em recebíveis.”
Diferenciação entre os Instrumentos
Os dois instrumentos desempenham funções distintas. Os FIDCs, que realizaram 559 operações no semestre, apresentaram um tíquete médio próximo de R$ 95 milhões. As debêntures de securitização, por sua vez, totalizaram 46 operações, com uma média de R$ 487 milhões. Essa diferença de estrutura permite que um produto amplie a capilaridade do mercado, enquanto o outro se concentra em valores maiores, especialmente na securitização de empréstimos, financiamentos e recebíveis do setor financeiro.
Mecanismos de Acesso a Recursos
“Por meio de estruturas como CRI, CRA, CR e FIDC, fluxos futuros são antecipados e convertidos em títulos, permitindo que empresas acessem recursos de forma imediata, sem precisar aguardar o ciclo completo desses ativos”, explica Palacios.
Desempenho das Carteiras
A expansão também se reflete na composição das carteiras. Uma análise dos informes mensais dos FIDCs apresentados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indica que o estoque de direitos creditórios, com aquisição substancial dos riscos e benefícios, atingiu R$ 444,1 bilhões em junho, resultando em um crescimento de 18,4% em comparação aos R$ 375,2 bilhões registrados um ano antes.
Inadimplência e Monitoramento
O saldo informado pelos administradores sobre créditos existentes inadimplentes subiu de R$ 37,3 bilhões para R$ 42,5 bilhões, marcando um avanço de 13,9%. Este aumento, no entanto, foi inferior ao crescimento do estoque total. A relação entre o total de créditos inadimplentes e o estoque recuou de 10% para 9,6%. Vale lembrar que esse cálculo não se equipara a uma taxa oficial de inadimplência ou perda, uma vez que compreende partes de campos contábeis sujeitos a provisões. Contudo, ele dimensiona a carga de ativos que requer acompanhamento, renegociação e cobrança.
Confiança dos Investidores
“A expansão sustentável da securitização depende da confiança dos investidores e da compreensão adequada dos riscos e características de cada produto”, afirma José Alexandre Freitas, CEO da Oliveira Trust.
Transformação Regulatória
A mudança na composição do mercado de securitização também está ligada a uma transformação regulatória. A Lei 14.430 criou um marco geral para a securitização, enquanto a Resolução 175 modernizou as regras dos fundos. Simultaneamente, o Conselho Monetário Nacional (CMN) restringiu os lastros elegíveis para CRIs e CRAs em 2024. Embora os números não permitam atribuir toda a migração às normas, eles demonstram que o capital encontrou novos caminhos.
Necessidade de Entendimento
O desafio que se apresenta agora é evitar que a velocidade do crescimento acabe prejudicando o conhecimento sobre as estruturas disponíveis no mercado. Marco Antônio Regino, vice-presidente de Mercado de Capitais da Trinus, aponta que “muitos empresários não conhecem profundamente as responsabilidades, as garantias e os mecanismos de acompanhamento de uma operação de CRI.”
Fonte: veja.abril.com.br


