A Inteligência Artificial e a Perspectiva do BTG Pactual
A inteligência artificial (IA) tem gerado discussões em torno de uma possível bolha, especialmente em relação à sua valorização. Contudo, o BTG Pactual afirmou que o atual cenário não remete à euforia desmedida que caracterizou o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000.
Razões para Considerar a IA um Tema de Longo Prazo
Em um documento divulgado recentemente, o banco apresentou 16 motivos que fundamentam sua visão de que a IA é uma tendência sustentável no longo prazo, afastando a ideia de uma bolha no setor. O analista Vitor Melo chamou a atenção para a produtividade estrutural, a solidez financeira das grandes empresas de tecnologia, a moderação nos múltiplos das ações e a continuidade do ciclo de investimentos financiados internamente.
O BTG relatou que a produtividade impulsionada pela IA apresenta convergência global de ganhos em torno de 1,3 ponto percentual ao ano, correspondendo a mais de US$ 1,5 trilhão adicionais na produção. Esse efeito está interligado a um grande ciclo de investimento em capital que deverá atingir US$ 1,2 trilhão anuais em infraestrutura até 2029.
O retorno esperado sobre esse investimento é de 20%, o que demandará aproximadamente US$ 1,68 trilhão em produção anual, equivalente a 5% da força de trabalho qualificada global ou 5% do lucro antes de juros e impostos (Ebit) das empresas em todo o mundo.
Comparação de Margens e Saúde Financeira
O BTG estabeleceu uma comparação entre a atual onda de IA e o período de 1999-2000. Hoje, as dez maiores companhias do S&P 500 apresentam uma margem operacional média de 39%, em contraste com 25% durante o auge da bolha.com. O aumento da margem líquida é igualmente notável, passando de 17% para 32% no presente momento.
Além disso, o fluxo de caixa livre (FCF) mantém-se elevado, com a mediana do S&P 500 mostrando um FCF yield de 3,5%, quase três vezes o que era registrado entre 2000 e 2001. Atualmente, o Nasdaq-100 negocia entre 29 e 30 vezes o lucro previsto, cifra que se revela inferior às 44 vezes observadas no pico da bolha e muito distante das 90 vezes alcançadas em 2000.
As grandes empresas de tecnologia também demonstram balanços financeiros mais robustos, operando com uma alavancagem média de -0,3x em relação à dívida líquida sobre o Ebitda, o que implica em caixa líquido, em contrapartida à alavancagem positiva de 0,6x observada na virada do milênio.
Outro aspecto relevante é que apenas 46% da geração de caixa está sendo reinvestida em Capex, uma taxa inferior aos 75% no auge da bolha e até mesmo abaixo da média histórica de 52%.
Aceleração da Demanda por Computação em Nuvem
Apesar de um pico previsto para 2023-2024, a demanda por serviços de computação em nuvem apresenta uma aceleração. Empresas como Google Cloud, AWS e Azure estão experimentando um crescimento de 20% a 40% ano a ano, com Google e Microsoft reportando um aumento de 46% a 50% nas carteiras de pedidos relacionadas à IA.
Um fator adicional que reforça a expectativa de longevidade é a durabilidade das unidades de processamento gráfico (GPUs), que superam as expectativas anteriores. Chips como o NVIDIA A100, lançados em 2020, continuam a ser amplamente utilizados, com big techs estimando sua vida útil lucrativa em até 6 anos, após o que podem ser realocados para inferência e cargas de trabalho menos intensas.
O BTG também menciona o novo lançamento da ferramenta Gemini 3, desenvolvida pelo Google, como um indício de que as “leis de escala” do segmento de IA permanecem robustas. Não apenas surgem novas capacidades tecnológicas, mas também novos desafios, como alucinações e problemas de segurança, que exigirão investimentos ainda maiores.
Sinais de Estabilidade na Atual Onda da IA
O BTG argumenta que a atual fase de investimento em IA não apresenta as características clássicas de uma bolha. Entre os indicadores que sustentam essa análise estão:
- 56 IPOs registrados nos EUA nos últimos 12 meses, em comparação com 511 durante o pico da bolha .com.
- O índice de "medo e ganância" da CNN aponta para um pessimismo extremo.
- Segundo levantamento do Bank of America, 54% dos gestores acreditam que o mercado está em uma bolha, um tipo de consenso defensivo que reduz a possibilidade de um estouro clássico.
- O índice AAII Bull/Bear permanece em um patamar negativo.
Apesar do rápido desenvolvimento de data centers, o investimento em IA representa apenas 1,3% do PIB dos EUA, um número que está abaixo dos ciclos envolvendo ferrovias (6%), eletrificação (4%) e a indústria militar durante a Guerra Fria (3%). Isso sugere que a indústria ainda está nas fases iniciais de desenvolvimento.
Iniciativas Governamentais em IA Soberana
Por fim, o relatório ressalta a corrida global pela infraestrutura de computação soberana, com países como Índia, Arábia Saudita, Japão, Reino Unido, França e Emirados Árabes Unidos anunciando projetos de grande escala para treinar modelos e administrar cargas de trabalho sensíveis localmente. Esses clusters possuem potencial para abrigar dezenas de milhares de GPUs, além de capacitações em computação exascale e centros de dados de alta capacidade.
O BTG Pactual vê a IA como um motor crucial para a produtividade global nas próximas décadas. Com uma demografia desfavorável e uma crescente escassez de mão de obra qualificada, a IA se destaca como o único vetor capaz de sustentar o crescimento econômico sem uma expansão proporcional da força de trabalho.
Os 16 Motivos que Indicam que a IA Não É uma Bolha, Segundo o BTG
- Ganhos de produtividade: Impacto médio de 1,3 p.p./ano no crescimento global.
- Retorno sobre investimento em Capex: Investimentos anuais de US$ 1,2 trilhão gerando um retorno estimado de 20%.
- Margens superiores a 1999: Margem operacional média de 39% nas top 10 do S&P 500.
- Forte geração de caixa: Mediana do S&P com FCF yield de 3,5%.
- Múltiplos abaixo das bolhas anteriores: Nasdaq-100 a 29–30x lucro.
- Líderes mais baratos que em 2000: As “7 Magníficas” negociam a cerca de 30x.
- Capex financiado internamente: 46% do caixa destinado ao capex.
- Menor alavancagem: Líderes com –0,3x de dívida líquida/Ebitda.
- Demanda robusta por hyperscalers: Google e Microsoft com 46%–50% de crescimento em novas ordens.
- Tecnologia em rápida evolução: Avanços como Gemini 3 demonstram ganhos de capacidade.
- Mercado de IPOs fraco: Somente 56 IPOs em 12 meses.
- Sentimento negativo: Índice da CNN em pessimismo extremo.
- “Bolha” como consenso: 54% dos gestores afirmam que IA é uma bolha.
- AAII Bearish: Índice Bull/Bear ainda negativo.
- Capex/PIB moderado: Capex de IA em 1,3% do PIB.
- Juross em queda: Reduções do Fed que sustentam múltiplos.
Fonte: www.moneytimes.com.br


