Modalidades de Previdência Corporativa
A previdência corporativa é dividida em duas modalidades principais: os planos averbados e os instituídos. Na primeira modalidade, a companhia não realiza aportes financeiros, enquanto na segunda, o empregador efetua aplicações concomitantemente com o funcionário, um processo conhecido como match ou contrapartida.
Aportes da Empresa e Limitações
O porcentual do match é, geralmente, definido pela organização. Na prática, muitas empresas realizam um aporte de R$ 1 para cada R$ 1 investido pelo colaborador, gerando um retorno de 100% nas contribuições mensais, além dos rendimentos já existentes no fundo. No entanto, esse modelo apresenta algumas limitações. Por exemplo, é possível que a empresa atrele o match a um percentual do salário. Se o teto for 5%, um funcionário que recebe R$ 10 mil e contribui com R$ 500 mensalmente (correspondente a 5% do salário) receberá um aporte idêntico da empresa, limitando-se a R$ 500 por mês, independentemente de possíveis aumentos na contribuição do trabalhador.
Vesting: Acompanhamento de Contribuições
Outro aspecto relevante no contexto da previdência corporativa é o vesting, que rege a parte das contribuições realizadas pela empresa que o colaborador pode levar ao se desligar da empresa. Comumente, quanto maior o tempo de permanência na organização, maior é a porcentagem acessada pelo trabalhador, até um prazo mínimo que garante o acesso total ao valor investido pela empresa.
Geração Z e os Investimentos em Previdência
Um estudo conduzido pela Stay revelou que jovens entre 18 e 25 anos, pertencentes à geração Z, são os que mais investem em planos de previdência corporativa sem que haja contrapartida da empresa. Para cada dez indivíduos dessa faixa etária, cinco optam por investir voluntariamente nessa modalidade.
Análise do CEO da Stay
Para Tsai Chi-yu, CEO da Stay, os resultados são surpreendentes. "Geralmente, acredita-se que pessoas em posições mais sêniores possuam uma capacidade maior de poupança do que outras faixas etárias", afirma. Ele destaca que, por um lado, a geração Z está preocupada em economizar, e por outro, a simplificação dos planos parece ser um fator determinante para atrair esse público à previdência privada.
Tsai Chi-yu observa que os jovens tendem a não ter paciência para burocracias, evitando processos que requerem o preenchimento de longos formulários, o envio repetido de documentos para seguradoras ou etapas complicadas para o resgate de valores. A adoção de processos mais simples pode ser um atrativo para esse público.
O estudo da Stay entrevistou 1.376 funcionários de empresas que oferecem o benefício de previdência privada. Dos participantes, aproximadamente 90% dos indivíduos com renda mensal entre R$ 5 mil e R$ 20 mil já haviam investido nesse tipo de produto.
Inovações em Planos de Previdência
Historicamente, barreiras como prazos longos para adesão, falta de transparência sobre os recursos, elevada burocracia para resgates e até a necessidade de contato telefônico com agências bancárias para resolver problemas afastaram vários investidores dos planos corporativos de previdência.
Avanços Recentes
Enquanto outros serviços financeiros se modernizaram, sendo facilitados pela presença de fintechs e maior concorrência dos bancos tradicionais, Tsai Chi-yu aponta que os planos de previdência ainda se mantêm "parados no tempo". No entanto, novas empresas estão adotando esforços para reverter essa situação.
A Stay, em parceria com a seguradora suíça Zurich, visa ajudar companhias a oferecer planos de previdência a seus funcionários, com o objetivo de aumentar o acesso a essas modalidades e disponibilizar um atendimento mais eficiente através do WhatsApp. Com essa plataforma, o colaborador pode facilmente verificar seu saldo investido e solicitar o resgate de valores.
Tradicionalmente, a lógica do mercado tem sido "prender" o dinheiro do trabalhador por muitos anos, mas a Stay aposta em modelos que melhor se adequam a uma geração que nem sempre busca fixar-se na mesma empresa por décadas. Isso representa uma tentativa de personalização dos planos. Por exemplo, um executivo em um cargo elevado pode ter um prazo de dez anos para acessar integralmente os valores que a empresa aportou. Já para funções de entrada, que normalmente têm uma maior rotatividade, esse período pode ser reduzido. Essa abordagem deve levar em conta o perfil da empresa: "O que é eficiente para um escritório de advocacia pode não ser para uma construtora ou uma empresa de tecnologia", explica Tsai Chi-yu.
A empresa Onze também tem promovido a personalização dos planos, atuando como uma prevtech, ou fintech dedicada ao setor de previdência, em colaboração com a Icatu Seguros. Por meio da plataforma da Onze, o funcionário consegue monitorar seu saldo em tempo real, ajustar os valores dos aportes e acessar projeções de longo prazo. A ferramenta também disponibiliza materiais de educação financeira e consultoria personalizada. Ana Paula Netto, consultora da empresa, ressalta a importância de educar os colaboradores sobre a sua saúde financeira, uma vez que apenas oferecer previdência privada sem orientação pode não ser eficaz.
Cenário da Previdência Corporativa
De acordo com os dados mais recentes da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), o total de CPFs únicos em planos corporativos alcançou 2,36 milhões em dezembro de 2025, representando cerca de 6% do total de pessoas empregadas no setor privado no Brasil.
Estudo da Mercer
Em 2025, pesquisa da consultoria Mercer, com a participação de 1.007 empresas que empregam aproximadamente 5 milhões de pessoas, revelou que 53% já ofereciam previdência privada corporativa. Dentre aquelas que ainda não disponibilizavam esse benefício, quase 49% pretendiam implementá-lo nos próximos três anos.
Ainda que a previdência não tenha alcançado a mesma popularidade que benefícios corporativos mais consolidados, como plano de saúde, seguro de vida e assistência odontológica, há um crescimento considerável no interesse por essa modalidade.
Incentivos Fiscais
João Batista Mendes, diretor estatutário da Fenaprevi, pontua que a oferta de previdência é mais comum entre empresas de grande porte, especialmente devido a questões fiscais. Companhias optantes pelo regime de lucro real têm a possibilidade de deduzir do Imposto de Renda (IR) os valores investidos nos planos, respeitando o limite de 20% da folha salarial dos participantes.
Mendes elucida que "empresas maiores conseguem reduzir a carga tributária, enquanto as menores, que não estão no regime de lucro real, podem até implementar o plano, mas sem os benefícios fiscais". A Fenaprevi está em discussões com o governo sobre maneiras de estimular empresas de menor porte a adotarem o benefício, incluindo potenciais incentivos fiscais. Essa medida seria vantajosa para o governo, pois quanto mais pessoas economizarem para o futuro, menor será a pressão sobre os gastos sociais.
Além das vantagens fiscais, as empresas percebem que a previdência privada corporativa serve como uma ferramenta eficaz para atração, retenção e engajamento de talentos. Segundo Tiago Calçada, diretor de investimentos da Mercer, “um salário ligeiramente superior ao de um concorrente, por si só, não é mais decisivo. Atualmente, o que pesa é o pacote completo de benefícios e a experiência que o funcionário terá na empresa”.
Fonte: einvestidor.estadao.com.br
