Seria uma classe de ativos em extinção?

Seria uma classe de ativos em extinção?

by Ricardo Almeida
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A Relevância dos Fundos Multimercado em Debate

Após um período de desempenho insatisfatório, caracterizado por resgates significativos e dificuldade para superar o CDI, os fundos multimercado tornaram-se alvo de discussões acaloradas entre os investidores. Um relatório elaborado pela TAG Investimentos, gestora que administra mais de R$ 18 bilhões, provocou uma reflexão crítica sobre o futuro dessa classe de ativos: a relevância dos multimercados estaria em risco?

A Indústria em Crise

Essa dúvida não é infundada. Muitas instituições que ao longo das últimas décadas se firmaram como referências no mercado brasileiro atualmente enfrentam enormes desafios para proporcionar retornos que superem consistentemente o benchmark da renda fixa, que é o CDI.

Um dos sinais mais evidentes dessa deterioração se manifestou recentemente. Em uma entrevista concedida à Bloomberg, Rogério Xavier admitiu que erros de posicionamento influenciaram negativamente o desempenho da SPX, coincidente com os resgates que a indústria vem enfrentando. A Verde é mais uma gestora que, nos últimos anos, passou por um processo de diminuição de sua estrutura, ilustrando uma tendência preocupante que pode ser observada em outros nomes de destaque no setor.

Resultados Prejudiciais

Apesar de haver esperança por uma melhora, essa expectativa foi frustrada em março, quando a indústria registrou sua segunda pior contração desde o início da pandemia. O IHFA, índice da Anbima que monitora o desempenho dos principais fundos multimercado do país, apresentou uma queda de 3,42%, somente atrás da desvalorização de 6,24% observada em março de 2020.

Em um curto espaço de duas semanas, o índice sofreu uma perda acumulada de 4,06%. Além disso, 71% dos 264 maiores fundos multimercado analisados encerraram o período com resultados negativos.

Análise de Mudanças Estruturais

A conclusão obtida foi clara e direta: existem indícios de que a indústria precisará passar por transformações significativas para recuperar a sua relevância.

Fatores Externos e Fragilidades da Indústria

Segundo a TAG, um dos principais elementos que impactou o desempenho atual dos fundos multimercado foi a guerra envolvendo o Irã e suas repercussões nos mercados globais. Esse conflito exacerbou as fragilidades existentes em muitas estratégias tradicionais da indústria brasileira.

Uma das características predominantes em grande parte dessa indústria foi a exposição comprada em mercados emergentes por meio do Brasil, a venda de volatilidade implícita, além de posições aplicadas em juros apostando na convergência da Selic e na redução das exposições a commodities, após um longo período de descrença em relação ao setor.

A Operação Epic Fury, que ocorreu em 28 de fevereiro, modificou radicalmente a dinâmica do mercado de energia. Em um período pouco superior a duas semanas, o preço do Brent se elevou de US$ 71 para US$ 126 por barril. No intervalo entre 4 e 16 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar intermitentemente, enquanto seguradoras elevaram drasticamente os custos de cobertura para navios que faziam transações na região.

De acordo com a TAG, a ascensão dos preços do petróleo provocou um choque imediato nas expectativas de inflação e na precificação dos juros brasileiros. Paralelamente, muitos fundos experimentaram perdas simultâneas, uma vez que estavam posicionados na mesma direção e frequentemente utilizavam níveis elevados de alavancagem.

Reflexões sobre o Modelo de Gestão

O relatório da TAG também apresenta questionamentos críticos sobre o modelo de gestão vigente. A pergunta levantada é bastante pertinente: por que os investidores estariam dispostos a pagar taxas elevadas por um fundo multimercado, se uma carteira passiva pode oferecer praticamente a mesma exposição a risco?

Para responder a essa questão, a gestora elaborou o denominado “Kit Brasil”, uma carteira composta por cinco fatores de risco principais:

  • 20% em CDI pós-fixado;
  • 40% em juros (divididos igualmente entre títulos indexados ao IPCA e títulos prefixados);
  • 20% em dólar;
  • 10% em bolsa brasileira;
  • 10% em bolsa global na moeda brasileira.

A simulação da carteira foi realizada utilizando índices de mercado em vez de ETFs, com a intenção de ampliar o histórico da análise. Segundo a gestora, essa escolha não altera as conclusões finais.

Resultados Simulados

Os resultados obtidos na simulação foram surpreendentes. O estudo indicou que uma porção considerável do desempenho dos fundos multimercado pode ser atribuída exatamente aos fatores mencionados. Em outras palavras, os investidores estariam pagando por uma gestão ativa que, na prática, poderia ser replicada com produtos passivos disponíveis no mercado.

A diferença de custo entre esses modelos é notória. Uma carteira análoga ao Kit Brasil pode ser montada com recursos acessíveis, utilizando ETFs e fundos de baixo custo, por uma taxa entre 20 e 35 pontos-base anuais. Em contrapartida, os fundos multimercado tradicionais, que operam sob a estrutura clássica de 2% de taxa de administração e 20% sobre o desempenho em relação ao CDI, frequentemente impõem um custo efetivo que varia entre 250 e 400 pontos-base por ano.

A TAG argumenta que tal diferença nos custos só seria justificada se os fundos ativos apresentassem retornos superlativos, menor volatilidade ou estratégias verdadeiramente exclusivas.

Contudo, a realidade indica que, em muitos casos, os fundos continuam fortemente correlacionados aos mesmos fatores presentes no Kit Brasil. Assim, na prática, os investidores acabam pagando consideravelmente mais por uma exposição que poderiam obter de forma simples, clara e a um custo menor.

Uma Minoria com Diferenciais

A exceção a essa tendência, conforme ressalta a gestora, está nos fundos macro discricionários, que têm a capacidade de gerar um alfa genuíno por meio de posições relativas, operações assimétricas e estruturas de convexidade que não podem ser reproduzidas com uma simples seleção de ETFs.

Contudo, esses casos parecem ser a minoria dentro do cenário atual da indústria.

Perspectivas Futuras para a Indústria

A TAG sugere que a crise enfrentada pelos fundos multimercado também é reflexo de uma mudança mais profunda na dinâmica dos mercados globais. Essa análise é apoiada por um argumento do economista Louis-Vincent Gave, que observa que o perfil do investidor dominante se transformou.

Historicamente, os mercados foram cada vez mais influenciados por profissionais com formação em ciências quantitativas, que adotam tendências, algoritmos e crescimento exponencial, enquanto investidores tradicionais, que se enfocavam na análise de valor, narrativas econômicas e reversões à média, perderam espaço.

Essa transformação ajuda a contextualizar fenômenos que desafiaram modelos clássicos de investimento nos últimos anos, como os múltiplos elevados das ações nos Estados Unidos por períodos prolongados, a valorização sinérgica de tecnologia, ouro e bitcoin, e o desempenho superior de estratégias de momentum em comparação com abordagens tradicionais de valor.

Conforme a TAG observa, a indústria brasileira parece ter permanecido presa a um modelo que já se mostrava eficaz em décadas passadas. Muitos gestores continuam a operar sob premissas que se sustentam em um ambiente onde juros, câmbio e ativos de risco tendiam a convergir para padrões históricos.

Entretanto, os mercados atuais são cada vez mais moldados por inteligência artificial, automação, algoritmos e grandes fluxos quantitativos globais. A própria estrutura da indústria contribuiu para essa dificuldade em se adaptar a novos paradigmas.

Nos últimos três anos, os resgates acumulados nas gestoras somaram cerca de R$ 31 bilhões, levando a diversas delas a reduzir suas equipes e investimentos em pesquisa. Ao mesmo tempo, os profissionais especializados em ciência de dados, inteligência artificial e estratégias quantitativas cada vez mais se dirigem para centros financeiros mais avançados, como Londres, Nova York e Singapura.

Esse quadro, segundo a TAG, resulta em uma indústria que continua a cobrar taxas elevadas enquanto entrega performance cada vez menos competitiva.

Pontos de Reavaliação e Futuro dos Multimercados

Apesar das críticas levantadas, o relatório não propõe o abandono da gestão local. Segundo a TAG, ainda existem profissionais qualificados que têm a capacidade de gerar alfa genuíno sem depender excessivamente de fatores tradicionais de mercado. O desafio, no entanto, reside em identificá-los em um cenário que se torna progressivamente dominado por estratégias que oferecem beta disfarçado como gestão ativa.

Para a gestora, o futuro da classe de ativos deve necessariamente passar por uma configuração distinta daquela que foi predominante nas últimas décadas: a integração de uma proporção significativa de hedge funds globais, acessados por meio de estruturas locais que oferecem hedge cambial, acrescida de uma menor participação dos melhores gestores brasileiros.

Conclui-se que a sobrevivência dos fundos multimercado é provável, mas sua continuidade dependerá da habilidade da indústria em se reinventar. Os produtos continuam semelhantes, as equipes mudaram pouco e as estruturas de taxa permanecem praticamente inalteradas. O que mudou, de fato, foi o ambiente de mercado que os circunda.

Em um mundo cada vez mais dominado por ETFs, algoritmos e estratégias quantitativas, a mera exposição a fatores tradicionais de risco já não parece ser suficiente para justificar os elevados custos associados à gestão ativa.

A pergunta que persiste, portanto, não é se os fundos multimercado conseguirão sobreviver, mas sim quantas gestoras conseguirão se adaptar antes que os investidores optem por alternativas mais acessíveis, transparentes e efetivas.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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