Shopping Vazio em Moscou Revela Fragilidade da Economia Russa

Shopping Vazio em Moscou Revela Fragilidade da Economia Russa

by Fernanda Lima
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Cenário econômico em Moscou

Uma trilha sonora de música pop animada ecoa pelo átrio de um shopping center luxuoso localizado em um subúrbio de classe média em Moscou. Contudo, essa música, que deveria refletir a agitação dos compradores, ressoa para lojas de fachada de vidro quase vazias, cujas janelas estão encobertas por tábuas — um sinal evidente das dificuldades econômicas enfrentadas pela Rússia.

O shopping Goodzone, que abriu suas portas em 2014 com grande expectativa, abriga um cinema multiplex com oito salas, agora desertas, com as luzes do saguão apagadas. Apesar de continuar operando todos os dias da semana, o shopping no sul de Moscou parece estar em um lento processo de decadência, com poucas lojas abertas e um número ainda menor de clientes.

Após a invasão em grande escala da Ucrânia e a saída de diversas empresas ocidentais devido a sanções sem precedentes, a economia da Rússia desafiou as expectativas, direcionando seus esforços para gastos militares substanciais e aumento das exportações de petróleo para países como China e Índia.

Entretanto, sinais de crescente tensão econômica começam a emergir, evidenciados por uma contração do PIB de 1,8% nos primeiros dois meses de 2026. O presidente Vladimir Putin reconheceu a gravidade da situação em uma reunião do governo dedicada a assuntos econômicos, realizada em meados de abril.

“As estatísticas demonstram que o crescimento econômico, infelizmente, tem desacelerado por dois meses consecutivos”, afirmou Putin, pedindo esclarecimentos às autoridades sobre “os motivos pelos quais a trajetória dos indicadores macroeconômicos está aquém das expectativas”.

Gennady Zyuganov, líder do Partido Comunista da Rússia, criticou posteriormente a ausência de respostas satisfatórias às indagações de Putin, descrevendo a situação econômica como “triste e preocupante”.

Durante um discurso na Duma Estatal, Zyuganov alertou que o país poderia estar à beira de um tipo de revolução ao estilo bolchevique se o governo falhasse em conter a deterioração da economia.

Embora tenha evitado criticar diretamente Putin — o que geralmente ocorre com a oposição cuidadosamente controlada pelo Kremlin —, ele fez questões sobre a responsabilidade do governo no atual cenário.

“Já os alertamos repetidamente: com essa trajetória, a economia inevitavelmente enfrentará colapsos”, declarou Zyuganov.

Deslocamento no consumo: um shopping “semi-apocalíptico”

Apesar da ausência de sinais evidentes de agitação social em larga escala na Rússia, e enquanto outros shoppings, como o imenso Aviapark no noroeste de Moscou, parecem ser muito mais bem-sucedidos, vários funcionários do Goodzone relataram à CNN a crescente escassez de clientes.

Um desses funcionários, Ivan, que trabalha como caixa em uma das maiores redes varejistas da Rússia, solicitou que sua identidade não fosse revelada. Ele explicou que, devido à difícil situação econômica atual, não pode se dar ao luxo de perder seu emprego.

“Em termos da situação econômica, isso diz algo sobre o que está acontecendo no país?”, indagou Ivan, apontando para a tela da sua caixa registradora.

Na tela, apenas 13 transações foram registradas naquele dia, totalizando 3.417 rublos (aproximadamente US$ 45). Era uma tarde de quinta-feira no fim de abril, e Ivan comentava que em tempos melhores, o número de transações teria chegado a cerca de 300.

“(O Goodzone) parece meio apocalíptico”, afirmou Ivan. “É um shopping tão imenso que é fácil se perder e ficar exausto só de caminhar por lá. Foi projetado para acomodar um fluxo enorme de pessoas, mas não vejo ninguém por aqui.”

A CNN tentou obter comentários da administração do shopping. O site do local menciona que partes estão em reforma e que novos lojistas estão sendo integrados — informações que não se confirmam na prática.

O site ainda está divulgando espaços comerciais para alugar a preços extremamente baixos, a partir de apenas 1 rublo (cerca de US$ 0,01) por metro quadrado. Muitas das lojas inativas anteriormente contavam com marcas ocidentais que se retiraram.

Duas funcionárias de uma loja de presentes, que também pediram anonimato, relataram à CNN que quase não há mais clientes visitando a loja.

“Basicamente, estamos usando esta loja como um depósito”, comentou uma delas. Ela ressaltou que, mesmo após a pandemia de Covid-19, muitas empresas migraram para o ambiente digital, mas observou que os negócios em geral se recuperaram — isto é, até a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.

“Depois de 2022, o poder de compra caiu bastante”, afirmou ela. “Não temos mais esperanças de que a situação melhore. Apenas desejamos que não piore.”

A outra funcionária concordou com um aceno de cabeça. “Esse é nosso único desejo, já que os preços de tudo aumentam diariamente, mas os salários não seguem o mesmo caminho”, declarou.

As funcionárias relataram que seu empregador enfrenta dificuldades para atender às crescentes exigências fiscais. “O proprietário está correndo de um lado para o outro, bem ocupado, porque os impostos aumentaram este ano, e ele está com dificuldades para conseguir o dinheiro necessário para os pagamentos. Está realmente difícil para os empresários neste momento”, comentou uma delas.

Desafios econômicos: “O ciclo de expansão chegou ao fim”

Para incrementar a arrecadação, a Rússia optou por elevar o imposto de renda e o imposto sobre as sociedades no ano anterior, com o imposto sobre valor agregado, ou IVA, aumentando para 22% a partir de 1º de janeiro de 2026.

Ruben Enikolopov, professor pesquisador na Escola de Economia de Barcelona, observou que, no início da invasão em larga escala da Ucrânia, o Kremlin apresentava uma dívida pública controlada e reservas substanciais, utilizando esses fundos para injetar recursos na economia por intermédio de gastos militares.

“Isso é eficaz por um certo período, mas não pode se perpetuar indefinidamente. Os gastos públicos impulsionaram a economia, porém agora o ciclo de expansão chegou ao fim. As reservas estão diminuindo e é necessário encontrar novas fontes de receita, resultando no aumento dos impostos”, comentou Enikolopov.

Enikolopov destacou que, embora Moscou tenha se beneficiado dos elevados preços da energia durante a guerra no Oriente Médio, os ataques ucranianos à cadeia de abastecimento russa — em especial os contínuos ataques às refinarias — reduziram a quantidade de petróleo disponível para exportação.

Recentemente, o ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Reshetnikov, reconheceu publicamente que as recentes alterações tributárias impactaram as empresas de maneira negativa.

Reshetnikov afirmou que a Rússia tem contado com suas reservas, mas “agora estamos vendo que essas reservas estão praticamente esgotadas e que a situação macroeconômica se tornou muito mais complicada”. A principal prioridade do governo, segundo ele, é auxiliar as empresas a se adaptarem à nova realidade.

Desigualdade na economia: ricos e pobres

Entretanto, isso pode não ser tarefa simples, especialmente em virtude das interrupções na internet e na rede móvel impostas pelo governo, que afetaram a capital e outras grandes cidades nos últimos meses.

Oksana, que está em São Petersburgo, relatou que as restrições dificultam a comunicação dos clientes com a oficina mecânica onde trabalha, assim como a realização de pedidos. Putin justificou as restrições afirmando que são essenciais para a segurança pública.

“Como gerente de vendas, preciso localizar meus clientes pessoalmente nas ruas, mas, por vezes, as quedas de internet me obrigam a trabalhar de casa para ter acesso ao Wi-Fi”, relatou Oksana, pedindo para usar um pseudônimo por não estar autorizada a falar com a mídia. “O mundo inteiro faz pedidos online e, em certos dias, clientes simplesmente não conseguem, por questões técnicas, realizar pedidos ou efetuar compras.”

Os bilionários russos, mesmo com as dificuldades e sanções, testemunharam um aumento de 11% em sua riqueza combinada no ano passado, segundo informações da Forbes Rússia.

Alexandra Prokopenko, pesquisadora do Carnegie Russia Eurasia Center em Berlim, mencionou à CNN: “Não é um segredo: a guerra intensificou a desigualdade dentro da população russa. Observamos que os ricos estão cada vez mais ricos, enquanto os pobres se tornam mais pobres.”

Esta realidade é sentida de forma intensa pelos habitantes de Golitsyno, uma pequena cidade próxima a Moscou, onde a maioria vive com rendas baixas. Lyubov Sergeevna – que optou por revelar apenas seu primeiro nome e o patronímico – relatou à CNN que estão enfrentando um aumento acentuado nos preços devido ao conflito.

Ela e o marido vivem de suas aposentadorias, que juntas somam cerca de 64.000 rublos por mês (aproximadamente US$ 854). Ela expressou gratidão por não ser viúva: “Juntos, conseguimos nos sustentar. Se eu estivesse sozinha, o aluguel do apartamento é de 8.200 rublos… A situação fica mais complicada quando se está sozinha”, comentou.

“Estou pessimista em relação aos preços”, continuou, acreditando que esses continuarão a subir até o término da guerra.

Contudo, mesmo diante de tais dificuldades, ela ainda expressa apoio àquilo que a Rússia denomina de “operação militar especial”, afirmando: “Vamos resistir por uma boa causa; não há mais nada a fazer.”

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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