A Nova Perspectiva sobre Liderança
É comum ouvir histórias em mesas de bar sobre chefes rigorosos, onde um funcionário se expressa com um misto de orgulho e trauma ao relatar experiências de liderança que não eram compreensivas. Essa narrativa é muitas vezes tratada como se fosse um exemplo de liderança forte, com os ouvintes assentindo em concordância, como se essas atitudes fossem, de fato, uma virtude.
Esse tipo de relato é frequente nas mais diversas áreas de trabalho, incluindo rádio, televisão e mercado financeiro. Muitos trabalhadores, especialmente da geração conhecida como millenials, acabaram, sem perceber, admirando chefes que eram mentalmente e emocionalmente abusivos, associando a dureza na gestão a uma competência superior.
Entretanto, essa percepção mudou bastante para mim, especialmente após uma experiência em que um desses chefes me levou a um estado de estresse pós-traumático. Desde então, organizei minha carreira em gestão, a qual exerço desde 2016, buscando uma abordagem distinta.
A Mudança de Gerações no Ambiente de Trabalho
O ambiente profissional também passou por transformações significativas. Comentários sobre a Geração Z, que agora ingressa no mercado de trabalho, demonstram claramente essa mudança de valores e expectativas.
Dados recentes dão suporte a essa nova realidade. Em 2025, o Brasil registrou mais de 8,5 milhões de pedidos de demissão voluntária, estabelecendo um recorde histórico. Uma pesquisa do Ministério do Trabalho e Emprego, envolvendo mais de 53 mil trabalhadores, revelou que 16,2% desses pedidos ocorreram devido a problemas com a liderança direta.
Não se trata de concorrência acirrada, salários insatisfatórios ou de ausências de planos de carreira. A principal razão para essas demissões está diretamente relacionada ao comportamento dos chefes.
Além disso, um estudo da Gallup salientou que 70% da variação no engajamento de uma equipe pode ser atribuída à qualidade da liderança direta. Isso implica que muitas das dificuldades enfrentadas por uma equipe estão ligadas a falhas na gestão, em vez de haver problemas nos níveis mais baixos da hierarquia.
Reflexões sobre o Livro de Brené Brown
Essas considerações me levaram ao livro “Bases Fortes”, da socióloga Brené Brown. Ao longo de sua carreira, ela se dedicou ao estudo da vergonha, vulnerabilidade e coragem, tornando-se, sem querer, uma referência para líderes e executivos em várias partes do mundo. Seu livro anterior, “Coragem para Ser Imperfeito”, obteve grande sucesso e acabou sendo adaptado para um programa no Netflix.
O livro “Bases Fortes” surge para desafiar a normalização de uma liderança agressiva e até cruéis, que muitos associam erroneamente à força.
A principal proposta de Brené é que é possível alcançar alta performance sem abrir mão da vulnerabilidade. Essa abordagem não se trata de uma simples conversa motivacional; ao contrário, fundamenta-se em décadas de pesquisa com líderes reais, demonstrando que equipes se destacam mais quando seus gestores são capazes de admitir erros, pedir ajuda e mostrar incertezas, de maneira a não perderem a direção geral.
A conexão, disciplina e responsabilidade — nesse exato ordem — representam o novo tripé que Brené propõe substituir a cultura do medo tão arraigada nas relações de trabalho.
A Diferença entre “Duro” e “Forte”
Um ponto-chave que Brené destaca é a confusão comum entre ser “duro” e ser “forte”. Embora muitas pessoas utilizem esses termos como sinônimos, eles representam conceitos distintos. Ser duro é ser rígido, incapaz de se adaptar, quebrando sob pressão e não ouvindo aos outros. Em contrapartida, ser forte significa resistir às dificuldades, mantendo-se flexível e capaz de se ajustar às situações, sem perder a integridade.
Analogamente, uma ponte de concreto rígido pode se rachar durante um terremoto, enquanto uma ponte projetada para se mover em resposta a forças externas permanece em pé. A liderança verdadeira é assim: a base rígida quebra, enquanto a base forte se adapta, aprende e continua a se manter firme e eficaz.
Brené faz uma provocação ousada logo no início de seu livro ao afirmar que a sociedade não está indo bem em sua missão de ser humana. Segundo ela, “No sentido coletivo, eu diria que estamos nos sentindo desconectados, desconfiados e emocionalmente desregulados”, o que impacta diretamente a formação de equipes e lideranças eficazes no ambiente de trabalho.
Assim, da próxima vez que alguém compartilhar a história de um chefe que nunca cede, pode ser válido perguntar, de maneira discreta: quantas pessoas valiosas esse chefe deixou escapar pelo caminho?
Informações sobre o Livro
Autora: Brené Brown
Editora: Bestseller (Grupo Editorial Record)
Fonte: www.moneytimes.com.br


