Auditoria que atuou na Fictor Alimentos trabalhou com mais de 100 fundos do ecossistema Master.

Auditoria que atuou na Fictor Alimentos trabalhou com mais de 100 fundos do ecossistema Master.

by Ricardo Almeida
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UHY Bendoraytes e Sua Presença nos Fundos Associados ao Banco Master

Um levantamento realizado com informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelou que a empresa de auditoria UHY Bendoraytes, que encerrou seu contrato com a Fictor Alimentos (FICT3) no início de março, desempenha um papel significativo em diversos fundos que são administrados em estruturas recorrentes ao redor do Banco Master.

Auditoria em Fundos de Investimento

No total de 939 fundos vinculados a quatro administradoras, a UHY se destaca com uma concentração notável na Master Corretora, auditando 113 fundos associados a essa rede. No Brasil, segundo a regulamentação da CVM, é obrigatória a presença de um administrador fiduciário e uma auditoria independente para cada fundo de investimento. O administrador é encarregado da estrutura operacional do fundo, que inclui o cálculo das cotas e a supervisão dos serviços prestados. Por sua vez, a auditoria é responsável pela análise das demonstrações financeiras e pela verificação da correspondência dos ativos declarados.

O levantamento concluiu que os fundos analisados pertencem a quatro administradoras que frequentemente estabelecem conexões com Banco Master: Master Corretora, Banvox, Trustee e Reag. Ao comparar os fundos e os auditores envolvidos, a UHY aparece como responsável pela auditoria de 33 dos 52 fundos da Master Corretora, o que representa quase dois terços dessa estrutura. Na Banvox, a empresa audita 44 dos 195 fundos, enquanto na Trustee, isso se aplica a 39 dos 267 fundos. Já na Reag, a presença do UHY é menor, com 15 de 425 fundos auditados.

Relações Entre Banvox e Fictor

O Banvox foi fundado por Maurício Quadrado, ex-sócio do Master, e Daniel Vorcaro, CEO do Master, que possuiu anteriormente uma participação de 20% na instituição financeira. A Reag, cuja liderança é de João Carlos Mansur, também era utilizada pelo Banco Master como um veículo de investimento, conforme indicado em investigações da Polícia Federal, assim como a Trustee, que possui ligação com o investidor Nelson Tanure.

No total, a UHY atua ou atuou como auditor de 564 fundos de investimento no Brasil, sendo que 113 deles — aproximadamente um em cada cinco — estão interligados ao ecossistema do Banco Master, contando apenas os fundos administrados pela Master Corretora, Banvox e Trustee, onde a participação da empresa é mais expressiva.

A Conexão entre Master e Fictor

A Fictor está inserida em uma rede financeira diversificada, com múltiplas relações e conexões. Além da Fictor Alimentos, a UHY também auditava dois fundos vinculados à Fictor Asset, conhecidos como FIP Multiestratégia e Jakarta. Fontes do setor indicam ainda que a UHY era responsável pela auditoria externa da Fictor Holding.

Documentos do processo de recuperação judicial indicam que a Fictor detém uma dívida de R$ 430 milhões com a Sefer Investimentos, relacionada à aquisição de cotas do fundo Krispy, que é gerido pela Trustee e também auditado pela UHY. No momento da solicitação de recuperação judicial do grupo Fictor, a Sefer negou ter relações credoras com a empresa, enquanto a Fictor afirmou que a quantia estaria ligada ao Banco Master.

Adicionalmente, a Sefer é mencionada em investigações como representante legal no Brasil da Master Holding, uma estrutura offshore de Daniel Vorcaro situada nas Ilhas Cayman, o que liga a dívida a um contexto corporativo internacional do controlador do banco.

Outra conexão encontrada foi entre a North Sea Capital, que, por meio do fundo Delta — auditado pela UHY e administrado pela Master Corretora —, foi empregada pelo banco de Vorcaro para aquisições de ações do Banco de Brasília (BRB). Essa configuração mostra que um fundo gerido dentro do ecossistema da Master, auditado pela mesma empresa e administrado pela própria corretora do banco, foi utilizado como um meio para uma operação estratégica da instituição financeira.

A North Sea também se destaca como um dos principais credores do grupo Fictor, conforme documentos do processo de recuperação judicial. Os R$ 3 bilhões investidos por mais de 13 mil credores na Fictor por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCP) continuam inacessíveis.

Vínculos Familiares

Além das interconexões institucionais, a investigação também descobriu laços familiares que envolvem o ambiente da auditoria e as entidades auditadas. A atuação da UHY no Brasil possui um histórico relacionado à família Bendoraytes. Rodrigo Bendoraytes, um dos membros da família, atuou como diretor de risco na UHY, e também ocupou posições nas diretorias de auditoria interna do Will Bank e do Banco Voiter, ambos com vínculos com o ecossistema do Master, e que foram liquidadas. Atualmente, ele lidera uma nova empresa chamada BHP Consulting.

Rodrigo Bendoraytes é casado com Luciana Angelo, que atualmente trabalha na UHY. A irmã de Luciana, Talitha Angelo, que atuou na Sefer Investimentos como diretora de compliance e controle, também possui laços com o grupo de Vorcaro no exterior, havendo se transferido recentemente para a empresa de Rodrigo. Vale ressaltar que vínculos familiares e a migração profissional são comuns e não necessariamente indicam irregularidade.

Um especialista do setor informou que essa situação é comum em ambientes corporativos, onde auditores frequentemente estabelecem relações próximas com os clientes que auditam. Em contextos onde existem estruturas financeiras complexas, esses vínculos exigem uma análise cuidadosa para evitar situações inviáveis.

Uma fonte também mencionou que a UHY realizava auditorias de lastro para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) da Sefer, assegurando a existência e a legalidade dos direitos creditórios que compõem a carteira dos fundos.

Investimentos Cruzados

Outro aspecto identificado foi o fenômeno dos investimentos cruzados entre fundos do mesmo ecossistema. Essa prática ocorre quando um fundo aplica recursos em outros veículos dentro do mesmo ambiente institucional. Essa dinâmica pode criar um circuito interno de capital, o que pode não ser considerado irregular, mas há o risco de inflar percepções de liquidez ou diversificação.

Para mapear essas movimentações, os dados públicos de composição de carteira (CDA) disponibilizados pela CVM foram utilizados. A análise focou nos fundos auditados pela UHY, buscando identificar os casos em que os fundos investiam entre si dentro do próprio ecossistema.

Em janeiro de 2024, foram apontados R$ 440 milhões em investimentos cruzados. Esse valor foi reduzido para R$ 379 milhões em janeiro de 2025, e para R$ 263 milhões em janeiro de 2026. O patrimônio total dos fundos associados ao Banco Master, que foram auditados pela UHY, subiu de R$ 2,3 bilhões em 2023 para cerca de R$ 12,8 bilhões em 2026.

Esse crescimento substancial foi, em grande parte, impulsionado por dois veículos: o Cutter FIF Multimercado Crédito Privado, gerido pela Reag, que teve um salto de R$ 584 milhões para R$ 5,8 bilhões entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025; e o Revolution FI Renda Fixa, da Master Corretora, que foi registrado em janeiro de 2026 com um patrimônio de R$ 10,3 bilhões.

Outras Auditorias no Cenário

A UHY não é a única empresa de auditoria com uma presença significativa no ambiente do Banco Master. Entre os 939 fundos analisados, a auditoria Next se destaca, presente em 359 fundos (38%). A concentração da auditoria varia conforme a administradora. Na Master Corretora, a UHY domina com 63% dos fundos, enquanto na Reag, a Next está à frente com cerca de 60%. Na Trustee, a RSM lidera com 131 dos 267 fundos auditados, e no Banvox, a distribuição é mais diversificada, com Next (27%) e UHY (23%) em posições relevantes.

A Next, que está sediada em Blumenau e possui menos de 50 funcionários, se firma como a auditoria predominante, especialmente em relação a fundos na Reag. Entre os casos notórios auditados pela Next está o fundo Arleen, que adquiriu uma participação no resort Tayayá, relacionado à família do ministro Dias Toffoli, e administrado pela CBSF.

A RSM Brasil, por sua vez, surge em uma posição delicada, já que foi escolhida para substituir a UHY na auditoria da Fictor Alimentos após a saída da empresa. A UHY não comentou sobre o assunto até a publicação desta matéria, e a Next também não respondeu aos contatos realizados. Em contraste, a RSM declarou que não mantinha uma relação direta de auditoria com o Banco Master, informando ainda que não possuía contratos vigentes com o grupo em 2025 e que foi contratada apenas em março de 2026 para auditar a Fictor Alimentos, com trabalhos ainda em fase de planejamento. A empresa também indicou que as auditorias que envolvem administradores fiduciários representam menos de 1% de sua receita total, sugerindo uma ausência de concentração relevante.

Fonte: www.moneytimes.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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