Tensão nas Relações Diplomáticas
Com as tensões nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, as autoridades brasileiras têm se empenhado em diversificar seus parceiros comerciais. Na indústria de defesa, esse cenário não é diferente, e os Emirados Árabes Unidos aparecem como um dos principais candidatos para esse fortalecimento de laços.
Estratégia de Diversificação
A estratégia não busca a substituição total da indústria de defesa dos Estados Unidos, uma tarefa considerada impossível pelos militares brasileiros. O objetivo principal é ampliar o leque de parceiros comerciais, de forma a reduzir a dependência de produtos provenientes dos Estados Unidos.
Complexidade do Ambiente de Investimentos
O ambiente de investimentos no setor de defesa no Brasil é considerado complexo. O Ministério da Defesa e as Forças Armadas enfrentam uma realidade orçamentária que, na visão dos militares, está abaixo do necessário, além da baixa previsibilidade de recursos. Essa situação tende a afastar potenciais investidores e inibir a modernização do setor.
No setor privado, os empresários lidam com um contexto tributário visto como complicado e pouco favorável.
A Ação dos Emirados Árabes Unidos
Entretanto, essa complexidade não parece ser um obstáculo significativo para os Emirados Árabes Unidos. O Grupo Edge, um dos maiores conglomerados de defesa do mundo, já realizou investimentos substanciais no Brasil. Em menos de três anos de operação no país, a empresa adquiriu duas empresas, desenvolveu parcerias para a produção de mísseis em colaboração com a Marinha do Brasil e estabeleceu uma fábrica em solo brasileiro. Além disso, firmou diversos acordos relacionados à segurança pública com governos estaduais.
A companhia, que tem sua sede em Abu Dhabi, já efetivou um investimento de aproximadamente R$ 3 bilhões em território brasileiro.
Oportunidades de Parceria
Diante da busca do Brasil por novos parceiros, é mais viável para o governo estreitar relações com aqueles com quem já possui vínculos estabelecidos. O próprio Grupo Edge reconhece essa lógica. Em uma entrevista à CNN, o CEO da empresa, Hamad Al Marar, afirmou que o distanciamento entre Brasil e Estados Unidos pode representar uma oportunidade para expandir as operações da empresa no Brasil.
Em suas palavras, “100% (pode ser uma oportunidade). Quando olhamos para nossa linha de atuação, tudo se resume, no caso da defesa, à posição política, em determinado momento e em determinada circunstância. As relações — em qualquer lugar, até mesmo entre famílias — sobem e descem.”
Ele complementou que as oportunidades estão presentes e que o grupo tem atuado de forma genuína, apresentando as especificações corretas, as propostas apropriadas, o cronograma adequado e preços justos. “Portanto, olhando por esse lado, o mercado está aberto. Agora, quando há tarifas aplicadas, geralmente conseguimos estar em uma posição melhor e mais competitiva”, declarou.
Reuniões com Autoridades Brasileiras
Recentemente, representantes do Grupo Edge estiveram no Brasil e mantiveram reuniões com membros das Forças Armadas e com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. Hamad, ao comentar sobre a visita — que também incluiu a inauguração da nova sede da Siatt, uma empresa brasileira adquirida pelo conglomerado —, destacou que a aproximação entre as autoridades brasileiras e as dos Emirados já vai além de uma simples abordagem comercial.
“De forma geral, claro, viemos com uma abordagem de negócios, mas acredito que hoje já estamos muito além disso. A parte brasileira está bastante familiarizada conosco. Temos atuado de forma muito ativa em várias frentes, encontrando diferentes stakeholders e tomadores de decisão. A credibilidade se prova com o tempo, e acredito que estamos na trajetória certa para isso”, afirmou.
Orçamento e Parcerias
A questão do orçamento no Brasil também foi abordada na entrevista. De acordo com a avaliação do Grupo Edge, essa situação não representa um entrave no momento. Hamad assinalou que a estratégia de negócios do conglomerado é investir em projetos que já possuam um certo nível de desenvolvimento no país.
“É sempre positivo ter mais de um parceiro conduzindo esse tipo de desenvolvimento: reduz custos, pode ampliar o acesso a capacidades que ajudam a entregar mais rápido e, no fim das contas, pode até gerar dois clientes em vez de apenas um”, disse o CEO.
Ele também destacou que as parcerias estabelecidas não devem se restringir ao setor de defesa. O Grupo Edge atua em várias áreas, incluindo defesa, cibernética, segurança nacional, satélites e espaço. “Ou seja, não se trata apenas do orçamento militar, mas de qualquer projeto que envolva o elemento da segurança”, concluiu.
A Qualificação da Mão de Obra Brasileira
Hamad ressaltou a qualidade da mão de obra brasileira, com ênfase nos engenheiros, considerados altamente qualificados. Ele também destacou o papel estratégico do Brasil na América Latina, que possui o potencial de ser um modelo de sucesso para a expansão do grupo na região.
“E quando falamos sobre o Brasil, não podemos esquecer que ele está inserido na América Latina, que representa um grande mercado — inclusive além das fronteiras”, afirmou.
A empresa tem planos de expandir suas atividades na América do Sul nos próximos anos.
Investimentos Significativos no Brasil
O Grupo Edge, com sede em Abu Dhabi, já investiu aproximadamente R$ 3 bilhões no Brasil até o presente momento. Em setembro de 2023, o conglomerado comunicou a aquisição de 50% da empresa brasileira SIATT, a qual se especializa em armas inteligentes e sistemas de alta tecnologia.
Além disso, o Grupo Edge firmou parcerias na área de segurança pública com o estado de São Paulo. Em 2024, adquiriu 51% da Condor Tecnologias Não Letais, uma das principais produtoras mundiais de gás lacrimogêneo, munição de borracha, granadas de fumaça e produtos correlatos.
Em 2025, a SIATT e a Marinha do Brasil assinaram um acordo que prevê a produção e desenvolvimento conjunto de mísseis no Brasil. O acordo representa um contrato de compartilhamento de propriedade intelectual que estabelece os termos e condições para o desenvolvimento e a produção do MANSUP (Míssil Antinavio Nacional) e sua versão de longo alcance, o MANSUP-ER.
O documento também prevê direitos para modificações, uso, produção e exploração comercial tanto no Brasil quanto em outros países, com a obrigação de pagamento de royalties de retorno à Marinha. Com isso, os mísseis poderão ser utilizados pelas Forças Armadas brasileiras e também estarão disponíveis para exportação, o que fortalece a indústria nacional de defesa.


