Regime Global e Economia
Em um novo regime global caracterizado por uma inflação que se mantém em níveis elevados por mais tempo, novos elementos surgem como fundamentais na definição das estratégias de investimento dos agentes econômicos. Entre esses fatores estão o risco geopolítico, a continuidade do dólar como moeda de referência no cenário global, a crescente popularização da inteligência artificial e as oportunidades nos mercados emergentes.
Esse tema foi amplamente discutido no evento Expert XP 2026, que contou com a participação de especialistas renomados de instituições como Franklin Templeton, BNP Paribas Asset e PIMCO.
Risco Geopolítico
A visão dos especialistas sobre o comportamento do mercado indica que o risco geopolítico se tornou um aspecto central nas decisões de investimento. Segundo Luis Oliveira, vice-presidente executivo da PIMCO, “antes, esses eventos aconteciam de maneira esporádica, mas agora acreditamos que esse risco se tornará uma constante”.
Oliveira ressalta que acontecimentos como a pandemia, o “Liberation Day” e os efeitos das tarifas impostas durante a gestão de Donald Trump resultaram em uma fragmentação significativa na economia global. Ele destaca que a próxima grande influência, ou “elefante na sala”, que determinará o rumo econômico mundial nos próximos três a cinco anos será a inteligência artificial. A previsão é de que as empresas invistam pelo menos US$ 6,7 trilhões, no que se refere ao capital gasto em investimentos (capex).
Em relação ao mercado de petróleo, a análise de Oliveira aponta que a economia deverá desacelerar, resultando em uma diminuição da demanda por energia. “No curto prazo, a volatilidade do petróleo permanecerá alta”, afirma ele.
Inflação e Dólar
Os analistas também destacaram que o cenário econômico nos próximos trimestres deve apresentar uma inflação que se mostra resiliente. O dólar, embora tenha perdido um pouco de seu protagonismo, ainda ocupa uma posição de destaque entre as moedas em circulação no mundo.
Paulo Eduardo Clini, chefe de Investimentos em renda fixa e multimercados na Franklin Templeton, discorre sobre a teoria do dollar smile, que sugere que a moeda americana se fortalece tanto em cenários econômicos favoráveis quanto em tempos de crise. “As situações extremas são vantajosas para o dólar. Quando há risco de recessão ou guerra, a aversão ao risco surge e todos tendem a buscar refúgio no dólar. Por outro lado, se a economia americana apresenta crescimento, os investidores também se inclinam a adquirir dólares”, explica Clini.
Por essa razão, Clini expressa a crença de que o dólar continuará robusto, mesmo diante do crescimento de outras moedas, incluindo aquelas de natureza digital.
Perspectivas da Inflação e Juros
De acordo com Andressa Castro, economista-chefe da BNP Paribas Asset, a inflação nos Estados Unidos e no restante do mundo não é de natureza estrutural, enquanto os juros elevados apresentam essa característica. Para ela, a evolução da inflação depende em grande medida das decisões do Federal Reserve, o Banco Central americano. Entretanto, Castro acredita que a inflação não permanecerá pressionada por um período prolongado. “Ela só continuará elevada se o BC americano desejar assim”, ressalta.
A economista reconhece que existem fatores difíceis de mensurar, que impactam diretamente a alta nos preços, como a pandemia, a guerra na Ucrânia, tarifas e conflitos no Oriente Médio. “O Federal Reserve enfrenta dificuldades em contorná-los”, afirma. Castro também espera que o Federal Reserve opte por novos aumentos nas taxas de juros para alcançar a meta de inflação. A grande questão pendente é saber se isso ocorrerá em 2027 ou se será necessário esperar até 2028. Caso o preço do petróleo permaneça em torno de US$ 100, o Fed precisará agir para preservar sua credibilidade. “No entanto, se o conflito entre os Estados Unidos e o Irã for resolvido e o petróleo voltar a ser negociado entre US$ 60 e US$ 70, o ideal seria manter a taxa de juros atual”, pontua a economista.
Os especialistas estão convencidos de que o novo normal na economia será uma inflação sob pressão. Clini, da Franklin Templeton, acredita que o Federal Reserve não permitirá que a inflação permaneça em níveis elevados indefinidamente. “A taxa de juros será um fator determinante para isso”, afirma Clini.
Oportunidades nos Mercados Emergentes
Embora a bolsa americana tenha registrado um rali considerável, especialistas afirmam que é possível encontrar boas oportunidades de investimento nos mercados emergentes, funcionando como uma alternativa válida para diversificação. Oliveira, da PIMCO, menciona a renda fixa como um investimento com ótimo risco-retorno, oferecendo rendimentos em torno de 7%.
Cini, da Franklin Templeton, é enfático ao declarar que, apesar do recente boom da inteligência artificial, ainda vale a pena direcionar investimentos aos mercados emergentes, particularmente na renda fixa local.
Comparação da IA com a Amazon
Os participantes do evento também compararam o atual crescimento da inteligência artificial com a trajetória da Amazon no passado, quando suas ações saíram de um valor de US$ 0,50 para mais de US$ 200. Contudo, os especialistas lembraram que, no início dos anos 2000, as ações da Amazon sofreram uma forte queda, retornando a valores extremamente baixos antes de experimentar uma recuperação que se concretizou apenas sete anos depois.
Na opinião dos gestores, essa situação pode se repetir com as empresas do setor de inteligência artificial. Entretanto, isso não diminui o reconhecimento de que o setor representa uma transformação significativa tanto para a economia quanto para o mercado, mesmo considerando a possibilidade de realizações de preço nos ativos futuramente.
Fonte: borainvestir.b3.com.br

