O efeito do crédito na saúde financeira.

O efeito do crédito na saúde financeira.

by Rafael Martins
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Parcelamento e Consumo

Em compras comuns no supermercado, em postos de gasolina ou farmácias, é cada vez mais comum que atendentes ofereçam aos consumidores a opção de parcelar a despesa em até três vezes sem juros. Muitos compradores consideram essa oferta vantajosa e decidem parcelar o que costumavam pagar de forma integral, seja à vista ou no cartão de crédito.

A diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, observa que um número crescente de pessoas está utilizando o crediário para quitar contas do orçamento mensal. O uso de crédito para despesas regulares pode desorganizar as finanças e transformar o crédito em um complemento à renda, quando deveria ser utilizado para adquirir bens duráveis e de importância significativa.

Importância do Crédito

A socióloga Adriana Marcolino enfatiza a importância do crédito, que facilita a aquisição de bens de consumo duráveis e de maior valor. Ela defende políticas públicas e iniciativas financeiras que aumentem o poder de compra dos trabalhadores.

Ansiedade de Consumo

A economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV) e analista da BRCG Consultoria, alerta que a facilidade de acesso ao crédito pode intensificar a chamada “ansiedade de consumo”. Ela observa que as pessoas tendem a antecipar ao máximo o que podem consumir, o que indica um comportamento que não está vinculado a uma faixa de renda específica ou a produtos essenciais.

Hennings destaca que as decisões de compra muitas vezes respondem aos “estímulos” publicitários, que vêm tanto dos meios tradicionais quanto das sugestões de influenciadores online. A economista afirma que uma vasta oferta de produtos e a facilidade de acesso ao crédito incentivam o consumo imediato, enquanto a gestão das finanças pessoais frequentemente não é considerada. "Essa parte, menos glamourosa, de fazer as contas não está sendo feita", ressalta.

Parcelas e Orçamento

A falta de planejamento poderá resultar em compromissos financeiros que ultrapassam a capacidade de pagamento do consumidor. Isso pode levar ao uso de financiamentos com as taxas de juros mais altas do mercado, como cheque especial, parcelamento direto no cartão de crédito ou o crédito rotativo, no qual o cliente paga apenas uma parte da fatura.

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, recomenda que os consumidores levem em conta os custos associados a essas dívidas antes de decidir realizar uma compra parcelada. Ele alerta que é necessário compreender quanto será pago em juros.

Bentes observa: “O brasileiro sabe pesquisar o preço de um produto no comércio. Ele consegue comparar o preço de um item de vestuário, um eletrodoméstico ou um produto eletroeletrônico. No entanto, na hora de tomar a decisão pelo financiamento, tende a simplesmente verificar se é possível acomodar a prestação dentro do orçamento."

Limites de Crédito

Outro erro comum entre os consumidores é a ideia de que o limite disponível no cheque especial ou cartão de crédito pode ser somado à renda mensal, conforme comenta a economista Isabela Tavares, responsável pelo acompanhamento de crédito e endividamento na Consultoria Tendências. Ela explica: “Precisamos entender que o limite do cartão de crédito não é uma renda extra. Deve-se garantir que a fatura do cartão possa ser paga com o salário recebido.”

Necessidade de Educação Financeira

Isabela Tavares, assim como Fabio Bentes e Katherine Hennings, defende que é essencial promover uma maior educação financeira nas pessoas, a fim de facilitar decisões mais conscientes sobre gastos.

Carlos Castro, planejador financeiro que criou uma plataforma de educação financeira online chamada SuperRico, também destaca a importância do tema. Ele atua em uma associação que forma profissionais para orientar a população sobre finanças. Castro desenvolveu uma cartilha e criou uma calculadora que auxilia os usuários a decidirem sobre a adesão ao programa Desenrola 2, além de orientar se o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para refinanciamento é apropriado.

Em sua visão, o programa é uma medida emergencial, mas acredita que a solução para os problemas financeiros do povo brasileiro precisa ser mais estrutural e focada na prevenção da reincidência do endividamento.

Dados sobre Inadimplência

Segundo informações do Banco Central, a inadimplência das famílias registrou em março um montante de R$ 238,5 bilhões, representando 5,3% do total de crédito concedido a essas famílias, que totaliza R$ 4,5 trilhões. Essa cifra não inclui todos os credores, como o comércio e prestadores de serviços.

Embora a porcentagem de empréstimos em atraso possa parecer baixa, a situação se tornou mais alarmante ao se observar a quantidade de pessoas com dívidas não pagas. A Serasa Experian aponta que 81,7 milhões de pessoas estão inadimplentes, sendo que a maior parte das dívidas (47,1%) é com instituições bancárias e financeiras. Destaca-se que, de cada 100 devedores, 78 recebem até dois salários mínimos.

As pessoas que recebem salários mais baixos frequentemente se encontram em uma posição de maior vulnerabilidade ao buscar empréstimos ou contrair dívidas de maior custo. Tavares explica que aqueles com notas de crédito mais baixas enfrentam dificuldades em conseguir crédito consignado, devido à falta de um emprego formal, o que os leva a recorrer a alternativas menos favoráveis, como empréstimos não consignados, cheque especial ou crédito rotativo do cartão.

De acordo com Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, o uso dessas opções de crédito tem como consequência a drenagem de parte da renda do trabalho em favor do sistema financeiro, já que quanto mais altos os juros, maior será a fatia destinada às instituições financeiras.

Fonte: borainvestir.b3.com.br

As informações apresentadas neste artigo têm caráter educativo e informativo. Não constituem recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos financeiros. O mercado de capitais envolve riscos e cada investidor deve avaliar cuidadosamente seus objetivos, perfil e tolerância ao risco antes de tomar decisões. Sempre consulte profissionais qualificados antes de realizar qualquer investimento.

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